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OPINIÃO

OPINIÃO | Paulo Sucena | I Centenário do 27 de Janeiro A Monarquia do Norte e o Combate de Águeda

2019-01-29 17:08:06

Foto SP

OPINIÃO | Paulo Sucena | I Centenário do 27 de Janeiro A Monarquia do Norte e o Combate de Águeda

Permitam-me os leitores que, de um modo muito sucinto, lhes forneça alguns elementos que ajudam a contextualizar um dos raríssimos episódios da história de Águeda com inequívoca relevância, ocorrido em 27 de Janeiro de 1919. Faço-o para que não seja apagada a nossa memória colectiva, principalmente por omissão daqueles que o não deviam fazer.
1. A instauração da Monarquia do Norte, também conhecida por Reino da Traulitânia, devido à violência com que os apaniguados da Monarquia, os trauliteiros, trataram os republicanos, principalmente os que foram encarcerados e interrogados no Eden-Teatro do Porto, não surgiu por acaso ou por qualquer circunstância fortuita, mas na sequência de uma continuada oposição ao regime republicano que se caracterizou de diferentes modos, desde a oposição legal ao afrontamento a roçar a violência que algumas vezes se revestiu da forma de atentado e até de confronto armado. Tudo isto se passou, desde os primeiros tempos da República, num clima de conspiração permanente em que entre outros conspiradores, cujos nomes omito por economia de tempo, avultou a figura do capitão de artilharia Henrique Paiva Couceiro que chefiou o episódio mais sangrento da frustrada caminhada monárquica. Estamos a referir-nos à episódica Monarquia do Norte, proclamada no Porto em 19 de Janeiro de 1919 e derrotada 25 dias depois, em 13 de Fevereiro desse ano, com a participação decisiva do Capitão Sarmento Pimentel à frente da Guarda Real que içou de novo a bandeira republicana, tendo o Dr. José Domingues dos Santos ocupado o Governo Civil.
2. Com a implantação da República, em 5 de Outubro de 1910, os partidos monárquicos silenciaram-se e os seus apaniguados mais militantes seguiram o caminho do exílio. Alguns acompanharam D. Manuel II na sua ida para Inglaterra enquanto outros seguiram Paiva Couceiro até Espanha.
Para não tornar muito extensa esta narrativa vou passar em claro o Golpe de Estado militar do Palácio de Cristal, no Porto, comandado por Paiva Couceiro, logo após a abolição oficial da Monarquia e a Promulgação da Constituição Política da República Portuguesa, em 1911, a sublevação monárquica de Penafiel, Paredes, Santo Tirso e Felgueiras em 29 de Setembro de 1911, a primeira incursão monárquica que, vinda da Galiza, tinha a dirigi-la o Capitão Paiva Couceiro, e os confrontos armados ocorridos em Braga, no dia 1 de Novembro daquele ano. Do mesmo modo, assinalo apenas superficialmente a segunda incursão monárquica que Couceiro pôs em marcha em 1912 a partir da Galiza, bem como o levantamento monárquico-clerical que teve lugar em Celorico de Basto, no Verão desse ano. Não se pense, todavia, que a agitação dos adeptos da monarquia se cingia ao Norte do país, porque em 1913 assistimos a um golpe monárquico em Lisboa, liderado por João de Azevedo Coutinho e em 21 de Outubro, os adversários da República destroem o Museu da Revolução.
Passando sobre estes três anos em vôo de pássaro, gostaria de assinalar com mais detalhe, e numa outra vertente, de natureza mais político-social, que o trabalho ideológico dos adversários da República prossegue com a eficácia suficiente para que, em 1914, surja a Causa Monárquica, organização dirigida por Aires de Ornelas e com o objectivo de apoiar D. Manuel II. Dela se virá a afastar, em 8 de Abril de 1914, um grupo de militantes de extrema-direita que darão origem a um movimento denominado Integralismo Lusitano que cortou com D. Manuel II e se uniu aos absolutistas na chamada Causa Nacional Portuguesa.
Neste contexto político, é possível constatar poucos anos antes da proclamação da Monarquia do Norte, que os defensores da monarquia constitucional procediam de modo a não fustigar a República, tendo, no entanto, aderido ao sidonismo e, anteriormente, ao projecto autoritário de Pimenta de Castro que, de 25 de Janeiro a 14 de Maio de 1915, chefiou o Governo com o apoio inequívoco dos monárquicos.
Em 1916, por meados de Dezembro, há um pronunciamento militar que agrega monárquicos, integralistas e republicanos conservadores, em Tomar, Abrantes, Castelo Branco e Figueira da Foz.
Em Dezembro de 1917 tem lugar a revolução de Sidónio Pais, apoiada por monárquicos, republicanos conservadores e católicos. Um ano depois, em Dezembro de 1018, Sidónio Pais é assassinado e, sob a influência das forças monárquicas, é eleito presidente da República o almirante Canto e Castro. Com o apoio das Juntas Militares, com forte componente monárquica, Tamagnini Barbosa chefia um governo que, de imediato, impõe a demissão dos ministros sidonistas e republicanos Egas Moniz e Afonso de Melo, o único ministro aguedense de qualquer governo monárquico ou republicano, que Tamagnini substituiu por um monárquico.
Em 1919, durante o mês de Janeiro, assiste-se a diversos movimentos monárquicos visando a queda da República, até que, em 19 de Janeiro de 1919, o capitão Henrique Paiva Couceiro proclamou, no Porto, a restauração da Monarquia num país economicamente depauperado, que sofria ainda as consequências da sua entrada na I Grande Guerra.
Proclamada a Monarquia e aclamado D. Manuel II como Rei de Portugal, procedeu-se à constituição de uma Junta Governativa do Reino de Portugal formada por sete ministérios em que o da Presidência, Fazenda e Subsistências era dirigido por Paiva Couceiro. A Monarquia do Norte estendeu-se desde o Minho e Trás-os-Montes até parte do Douro e Beiras (Viseu, Guarda e Castelo Branco). É de assinalar que, solitária, a Vila de Chaves resistiu aos ataques das forças monárquicas e manteve-se Republicana.
3. Sendo claro para Paiva Couceiro que o Norte estava praticamente dominado, era necessário estabelecer ligação com as forças monárquicas do Sul que haviam sido derrotadas em Monsanto no dia 24 de Janeiro. Inicia, então, Paiva Couceiro um movimento de tropas em direcção a Aveiro e Coimbra. Ultrapassadas as vilas de Ovar, Estarreja e Albergaria-a-Velha Paiva Couceiro avançou até Águeda onde estacionou as suas tropas na parte alta do Norte da Vila no dia 26 de Janeiro, enquanto as forças fieis à República se disponham no alto de Recardães. No dia seguinte travou-se um combate decisivo para a manutenção do regime republicano. As tropas monárquicas não só foram impedidas de continuar a sua marcha como Paiva Couceiro viu desertar muitos dos seus homens sem ter podido jantar em Águeda. Ficou-se pela Alagoa e pelas Barreiras que foram uma barreira intransponível para a sua ambição de ver Portugal regressar ao regime monárquico.
No dia 28, José Relvas toma posse como um chefe de um governo em que os sidonistas estão reduzidos apenas a três, sendo os restantes membros provenientes do Partido Democrático (dois), a que se juntavam dois unionistas, um evolucionista, um socialista e três republicanos independentes. O poder voltava assim às mãos de quem havia ajudado a fundar a República.
Da derrota de Paiva Couceiro em Águeda até 13 de Fevereiro, as forças republicanas libertaram Lamego, Estarreja, Oliveira de Azeméis, Ovar e Viana do Castelo. Naquele dia de Fevereiro o capitão Sarmento Pimentel e o Coronel Djalme de Azevedo derrotaram definitivamente a junta governativa que estivera à frente do “Reino da Traulitânea”.
4. Portugal iria viver mais sete anos em liberdade, sob um regime parlamentar republicano. Porém, a aurora de esperança democrática que havia nascido em Águeda em 27 de Janeiro de 1919 apagou-se no dia 28 de Maio de 1926. Essa chama de liberdade reacendeu-se 50 anos depois, quando os democratas de Águeda organizaram um jantar comemorativo do 27 de Janeiro de 1919, presidido pelo Coronel Hélder Ribeiro, em que recordo a presença do Dr. Almor Viegas, que nesse ano viria a ser candidato da Oposição à Assembleia Nacional pelo círculo eleitoral de Aveiro e ainda se mantém felizmente vivo e actuante com os seus 92 anos.
Os oposicionistas de Águeda organizaram o último jantar comemorativo do combate das Barreiras em 1973. Foi presidido pelo antigo candidato à Presidência da República, Dr. Arlindo Vicente, em cujo carro, guiado pelo seu filho António Pedro, vim de Lisboa, e realizou-se nas instalações da fábrica de António Neto, que teve a coragem de arrostar com as consequências de ser conivente com um evento de oposição à Ditadura, vigiado por dois agentes da PIDE/DGS que, sob disfarce, se haviam inscrito para o jantar. l PAULO SUCENA