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Memórias Zorro

MEMÓRIAS | Zorro | O Rapaz dos Calções - V

2019-04-16 15:24:51

Foto SP

MEMÓRIAS | Zorro | O Rapaz dos Calções - V

Durante mais de uma década, todas as noites, em casa do desaparecido, os familiares rezavam pelo seu regresso, até que, num ameno fim de tarde, quando a chiadeira dos carros de bois que regressavam do amanho das jeiras se misturava e confundia com o ruído que se fazia em frente da humilde choupana onde o rumor a festa fôra trocado, desde o desaparecimento, por murmúrios de tristeza ao ritmo do desfiar das contas do rosário e novenas em honra da Senhora dos Milagres. Milagre que teimava em não acontecer, mas na ressonância daquele fim de tarde, havia algo de diferente. Não eram ainda horas de reza nem havia eco de lamúrias, antes, sons de jubilosos hinos de felicidade, misturando risos e choros de alegria a fazerem despertar a curiosidade dos transeuntes que paravam para perscrutar as causas de tal burburinho.
Finalmente, era a boa-nova que transbordava de luz na velha casa, cujas paredes estavam, há mais de dez anos, impregnadas pela tormentosa amargura de quem vira um dos seus partir sem deixar rasto. Todavia, aquela vida de escuridão acabava de encher-se de luminosidade, pois o desaparecido estava de volta ao seio familiar!
Por já não haver espaço no cabanal de acesso ao interior da habitação, formara-se, à porta do casebre, um arraial de mirones impulsionados pela natural curiosidade, não só de ver o reaparecido, mas saber os meandros da história do desaparecimento. Uns por manifesto regozijo de vê-lo regressar ao lar; outros procuravam matéria para uma boa bisbilhotice.
Também nós parámos e certificámos de que não era algum tratante a fazer passar-se pelo desaparecido e, na calada da noite, surripiar, o que pudesse, agravando ainda mais o sofrimento daquela família.
Tínhamos bem presente a memória da tragédia que, anos antes, acontecera no povoado da margem esquerda, onde o Rio Águeda se junta ao Cértima e a proprietária de uma ourivesaria fôra barbaramente degolada por um salteador sem escrúpulos. A anciã, a pés juntos, jurava ter perdido as chaves do cofre e não ter ouro em casa, mas de pouco lhe valeu a súplica por clemência, tinha perdido as chaves e perdeu, também, a vida!
Mas daquela vez, na casa do desaparecido, não estava um audacioso, desavergonhado ladrão, mas sim aquele que inutilmente procurávamos sem êxito, há mais de dez anos. Agora, estávamos frente-a-frente com o nosso vizinho, colega de escola e do pião, era o mesmo pacato rapaz, mais crescido, com ares de maduro, mas ele mesmo, que regressava ao lar, perdendo o epíteto de abandonado, ganhando o título de fugitivo, ao sabermos que ele partiu, envolto numa história estranha que nunca contou, mas que afirmava ter ido de livre vontade.
Esta fuga tem algo de surreal, pois desde que desapareceu esteve sempre a pouco mais de quatro quilómetros da casa materna e constou-se mais tarde que ele num carro de burro, cujo dono andava de terra em terra, porta em porta, a comprar galinhas, coelhos, peles desses bichos e outras coisas mais que, diziam, enviava depois para Lisboa.
A geração de quarenta lembra-se bem desse homem, apesar de simpático e educado, pessoa de má fama, para os padrões daquela época. Hoje, a avaliar pelos seus tiques, seria, quem sabe, algum famoso televisivo, um qualquer coisa, daqueles que, nem machos nem fêmeas, mas que, despudoradamente, se propõem substitui-las em todos os serviços.
O fugitivo viveu como criado, não sabemos se algo mais, numa quinta em Alquerubim, a cuidar do galinheiro do Sr. Emilinho.
Anos mais tarde, O Rapaz dos Calções cruzava-se, na sua rotina, com o fugitivo, que organizara a sua vida na vila, todos os dias, ao fim da tarde, carregava um braçado de lindas flores silvestres que levava de visita à mãe, internada, há vários anos, na Misericórdia.
Porém, naquele dia, os últimos raios solares no horizonte iluminavam-no, discretamente, com um belo buquê de lágrimas, colhidas na trepadeira plantada junto à parede da velha casa, no dia que ele nasceu, e que desde que ele desapareceu não mais floriu até ao dia em que ele regressou.
Era o aniversário da mãe. Com um carinho comovente, só percetível a quem ama, ele colocou as lágrimas entre o seu peito e o daquela mãe que, apesar de desgastada e encarquilhada, mais pelas agruras da vida que pelo peso da idade, quando sentiu bater o coração do seu amado filho e, no silêncio daquele fim de tarde, trespassou-a uma onda de felicidade e paz. Apertou-o uma última vez contra o peito e... os sinos dobraram a finados!
- ZORRO