Otília Silva .. Olhares cruzados
Até que enfim Astérix foi até Portugal conhecer a terra de Viriato!
26 de novembro de 2025Durante muito tempo, a França ignorou Portugal, confundindo o país com a Espanha. Acabou a confusão. O último número - o quadragésimo primeiro - da célebre banda desenhada Astérix, de Goscinny e Uderzo, com texto de Fabrice Caro e desenhos de Didier Conrad, publicado a 23 de outubro passado, leva Astérix e Obélix até Portugal. O título é Astérix na Lusitânia.
A BD publicada desde 1959 conta as aventuras dum grupo de gauleses irredutíveis que dominam os romanos graças a uma beberragem que lhes dá força suficiente para desmantelar um exército inteiro.
O interessante é que não consta que os gauleses tivessem oposto muita resistência a Roma: Vercingétorix entregou-se a César com os seus homens. Em contrapartida, a história de Portugal conta que Viriato conseguiu, com um punhado de lusitanos, resistir às tropas romanas, causando-lhes bastante preocupação.
A BD utilizou, na ficção, um feito histórico português! Havia então uma dívida histórica que este último número vem pagar.
A banda desenhada refere-se a Viriato, apresentando-o como um pastor transformado em chefe de tribos, dando coragem e valentia aos lusitanos. É interessante analisar a imagem que dá dos portugueses: baixos, morenos, de cabelo negro, oleado e penteado para trás, usam bigode. Não é o “ch” que caracteriza o seu falar, mas o “ão” que acrescentam a qualquer palavra, com - diga-se de passagem - alguns erros caricaturais como “discução” ou “complicaçãos”.
O português surge ainda como alguém que não teme o trabalho e é muito ligado à família. Aparece também a sua capacidade comercial, quase capitalista. Come bacalhau e o pobre Obélix, que só gosta de javali assado, é obrigado a passar fome. Note-se ainda que os pastéis de nata são usados pelos gauleses como arma contra os romanos.
Astérix afirma que o português conhece-se pelo ar alegre, embora triste, e por viver no desassossego. Nesse ponto de vista, os autores da BD acertaram: o português é adepto do querer se bem que não querer, do triste embora alegre… e, contudo, do não se sentir ninguém.
Ao escrever estas linhas, lembro a voz da minha avó de Aguada de Baixo e a sua maneira de saudar quando transpunha o portão da filha, vinda de férias: “Quem és tu, romeiro?”. E, depois de um silêncio prolongado, com um tom trágico e profundo, caía o “- Ninguém!”
Qual não foi o espanto da neta adulta ao descobrir a passagem no Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett e, arrepiando-se, ouviu para além da morte a voz da anciã pronunciar novamente as duas réplicas que relia.
Como é que Garrett tinha chegado até à avozinha? Só se pode explicar pelo facto de o povo lusitano ser, afinal, um povo filósofo. Os autores da BD frisam isso com humor.
Talvez seja esse o verdadeiro prodígio desta BD: mostrar que, entre gauleses e lusitanos, entre a fantasia e a História, se perguntarmos - como a minha avó - “Quem és tu, romeiro?”, podemos agora responder: “Alguém.”
A BD publicada desde 1959 conta as aventuras dum grupo de gauleses irredutíveis que dominam os romanos graças a uma beberragem que lhes dá força suficiente para desmantelar um exército inteiro.
O interessante é que não consta que os gauleses tivessem oposto muita resistência a Roma: Vercingétorix entregou-se a César com os seus homens. Em contrapartida, a história de Portugal conta que Viriato conseguiu, com um punhado de lusitanos, resistir às tropas romanas, causando-lhes bastante preocupação.
A BD utilizou, na ficção, um feito histórico português! Havia então uma dívida histórica que este último número vem pagar.
A banda desenhada refere-se a Viriato, apresentando-o como um pastor transformado em chefe de tribos, dando coragem e valentia aos lusitanos. É interessante analisar a imagem que dá dos portugueses: baixos, morenos, de cabelo negro, oleado e penteado para trás, usam bigode. Não é o “ch” que caracteriza o seu falar, mas o “ão” que acrescentam a qualquer palavra, com - diga-se de passagem - alguns erros caricaturais como “discução” ou “complicaçãos”.
O português surge ainda como alguém que não teme o trabalho e é muito ligado à família. Aparece também a sua capacidade comercial, quase capitalista. Come bacalhau e o pobre Obélix, que só gosta de javali assado, é obrigado a passar fome. Note-se ainda que os pastéis de nata são usados pelos gauleses como arma contra os romanos.
Astérix afirma que o português conhece-se pelo ar alegre, embora triste, e por viver no desassossego. Nesse ponto de vista, os autores da BD acertaram: o português é adepto do querer se bem que não querer, do triste embora alegre… e, contudo, do não se sentir ninguém.
Ao escrever estas linhas, lembro a voz da minha avó de Aguada de Baixo e a sua maneira de saudar quando transpunha o portão da filha, vinda de férias: “Quem és tu, romeiro?”. E, depois de um silêncio prolongado, com um tom trágico e profundo, caía o “- Ninguém!”
Qual não foi o espanto da neta adulta ao descobrir a passagem no Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett e, arrepiando-se, ouviu para além da morte a voz da anciã pronunciar novamente as duas réplicas que relia.
Como é que Garrett tinha chegado até à avozinha? Só se pode explicar pelo facto de o povo lusitano ser, afinal, um povo filósofo. Os autores da BD frisam isso com humor.
Talvez seja esse o verdadeiro prodígio desta BD: mostrar que, entre gauleses e lusitanos, entre a fantasia e a História, se perguntarmos - como a minha avó - “Quem és tu, romeiro?”, podemos agora responder: “Alguém.”

