Paulo Sucena (Dr)
A MINHA ADMIRAÇÃO POR CAMÕES - A Manuel Alegre, amigo inabalável
04 de fevereiro de 2026Por volta dos 14 anos, a minha fixação residia nas páginas de O Livro de Cesário Verde, que encontrara por acaso na biblioteca do meu pai, numa edição de 1926, de J. Rodrigues & Cª, Editores, que ainda guardo. Confesso que fiquei logo preso ao Livro após ler a primeira estrofe do primeiro poema, “Deslumbramentos”: «Milady, é perigoso contemplal-a,/Quando passa aromática e normal,/Com seu typo tão nobre e tão de sala,/Com seus gestos de neve e de metal.». Copiei a quadra daquela edição de O Livro de Cesário Verde, porque a ortografia foi para mim uma excitante descoberta.
Por essa altura, Camões já não me era desconhecido, todavia eu não passava ainda de um leitor que agora ou logo lia com agrado alguns sonetos enquanto Cesário me prendia ao seu livro durante bastante tempo de cada vez que nele pegava.
Foi no ano letivo de 1955/56 que passei a ler Camões com afinco, quando frequentei o 5º ano num colégio da Beira-Alta que Flausino Torres aconselhou ao meu pai como o lugar certo para disciplinar o adolescente que ia ganhando fama no jogo dos matraquilhos, desde as imediações do Liceu Passos Manuel ao Bairro Alto, à custa de horas que devia dedicar ao estudo.
No colégio havia educação religiosa, com terço diário e missa aos domingos. Isso pouco me incomodou e só me lembro daquela espécie de ladainha que era o terço. O que me causou verdadeira indignação foram algumas atitudes do diretor, um espírito extremamente conservador, para com os alunos. Bateu ao meu amigo Sérgio Pereira da Silva, que viria a exercer advocacia em Lisboa, por tê-lo apanhado a ler um romance do Eça. E esbofeteou no seu gabinete um aluno do 7º ano, homem feito, que regressara aos estudos depois de ter concluído o serviço militar. Tentou o mesmo comigo quando o Chefe dos Correios lhe entregou uma carta (não a deixei na Secretaria porque sabia que as cartas dos alunos eram censuradas), por mim posta no marco do correio, em que contava aos meus pais umas bofetadas com que Flausino Torres mimoseara um professor de Inglês, assumidamente fascista, que lhe recomendara mais cuidado com a educação que dava ao seu filho Cláudio, aluno do 7º ano. Os seus alunos de Geografia (as disciplinas de Filosofia, História e OPAN já lhe haviam sido retiradas) bateram interiormente palmas ao verem, pelas janelas da sala onde tinham uma sessão de estudo antes da aula das nove, a inesperada cena.
Por outro lado, não suportava que o diretor dissesse mal de Antero de Quental, salvo quando Deus o inspirou em alguns poemas, poeta que o meu pai também tratava por “Santo Antero” e dele falava tão entusiasticamente que nessa altura eu já tinha lido os três volumes de António Ramos de Almeida, publicados na coleção “Cadernos Azuis”, dedicados a Antero de Quental. Os dois primeiros abordavam a infância e juventude do poeta e o terceiro dedicado ao apogeu, decadência e morte. A Antero juntava-se Camões e o Canto IX de Os Lusíadas que pecava por obscenidade na opinião do diretor do colégio.
Este foi o contexto que me levou a estudar com redobrado afinco Os Lusíadas e a ter a disciplina de Português em especial apreço o que se traduziu na alta classificação que obtive na prova escrita do exame do 5º ano. Posso dizer com verdade que nesse ano letivo Camões havia ganho a admiração do adolescente que nas férias grandes, em Águeda, se reforçou grandemente com as conversas, que se estendiam pela noite dentro, com o seu amigo Manuel Alegre. O dia era dedicado aos treinos de natação. Nesse ano de 1956 Manuel Alegre foi campeão nacional de juniores nos 200m livres e eu campeão regional nos 100m bruços na categoria de iniciados (nesse ano ainda não havia campeonatos nacionais nesta categoria).
Por essa altura, Camões já não me era desconhecido, todavia eu não passava ainda de um leitor que agora ou logo lia com agrado alguns sonetos enquanto Cesário me prendia ao seu livro durante bastante tempo de cada vez que nele pegava.
Foi no ano letivo de 1955/56 que passei a ler Camões com afinco, quando frequentei o 5º ano num colégio da Beira-Alta que Flausino Torres aconselhou ao meu pai como o lugar certo para disciplinar o adolescente que ia ganhando fama no jogo dos matraquilhos, desde as imediações do Liceu Passos Manuel ao Bairro Alto, à custa de horas que devia dedicar ao estudo.
No colégio havia educação religiosa, com terço diário e missa aos domingos. Isso pouco me incomodou e só me lembro daquela espécie de ladainha que era o terço. O que me causou verdadeira indignação foram algumas atitudes do diretor, um espírito extremamente conservador, para com os alunos. Bateu ao meu amigo Sérgio Pereira da Silva, que viria a exercer advocacia em Lisboa, por tê-lo apanhado a ler um romance do Eça. E esbofeteou no seu gabinete um aluno do 7º ano, homem feito, que regressara aos estudos depois de ter concluído o serviço militar. Tentou o mesmo comigo quando o Chefe dos Correios lhe entregou uma carta (não a deixei na Secretaria porque sabia que as cartas dos alunos eram censuradas), por mim posta no marco do correio, em que contava aos meus pais umas bofetadas com que Flausino Torres mimoseara um professor de Inglês, assumidamente fascista, que lhe recomendara mais cuidado com a educação que dava ao seu filho Cláudio, aluno do 7º ano. Os seus alunos de Geografia (as disciplinas de Filosofia, História e OPAN já lhe haviam sido retiradas) bateram interiormente palmas ao verem, pelas janelas da sala onde tinham uma sessão de estudo antes da aula das nove, a inesperada cena.
Por outro lado, não suportava que o diretor dissesse mal de Antero de Quental, salvo quando Deus o inspirou em alguns poemas, poeta que o meu pai também tratava por “Santo Antero” e dele falava tão entusiasticamente que nessa altura eu já tinha lido os três volumes de António Ramos de Almeida, publicados na coleção “Cadernos Azuis”, dedicados a Antero de Quental. Os dois primeiros abordavam a infância e juventude do poeta e o terceiro dedicado ao apogeu, decadência e morte. A Antero juntava-se Camões e o Canto IX de Os Lusíadas que pecava por obscenidade na opinião do diretor do colégio.
Este foi o contexto que me levou a estudar com redobrado afinco Os Lusíadas e a ter a disciplina de Português em especial apreço o que se traduziu na alta classificação que obtive na prova escrita do exame do 5º ano. Posso dizer com verdade que nesse ano letivo Camões havia ganho a admiração do adolescente que nas férias grandes, em Águeda, se reforçou grandemente com as conversas, que se estendiam pela noite dentro, com o seu amigo Manuel Alegre. O dia era dedicado aos treinos de natação. Nesse ano de 1956 Manuel Alegre foi campeão nacional de juniores nos 200m livres e eu campeão regional nos 100m bruços na categoria de iniciados (nesse ano ainda não havia campeonatos nacionais nesta categoria).

