António Almeida da Silva .. entrelinhas
POR QUEM OS SINOS DOBRAM (PARTE 4)
03 de setembro de 2025Quando a humanidade perde a esperança, a vida esvai-se como o fumo na ponta do cigarro; Luís sentia a alma sangrar e de coração partido, antes de fazer a sua marcha final, amargurado, dirige um comovido e derradeiro olhar de amor sobre os filhos que, dentro em pouco, ficarão órfãos!
Marieta não regateou esforços para fazer feliz o homem a quem prometeu estar na alegria e na tristeza, como na saúde e na doença.
Após mais uma noite de vigília a cuidar dele, manhã cedo, ouviu um surdo ruido e espreitou pelas friestas da janela - eram homens descalços que, caminhando, passavam à sua porta armados com nassas, galrichos e covos, rumo à mota do comum:
- Iam à pesca nos baixios do rio velho; as alagadiças chuvas outonais formavam lagunas onde crescia uma vegetação, macrófita aquática, composta por junco, taboa, bonho e nenúfar, o refúgio e alimento dos peixes.
Os pescadores colocavam-se em semicírculo com água pela cintura e chapinhavam até encurralarem os peixes nas armadilhas que fechavam o círculo.
Era o grupo de que o Luís fazia parte, ao domingo e só depois de missa, mas como, agora, ele não ajoelha, os colegas decidiram ir mais cedo; no regresso far-lhe-iam uma visita de cortesia e repartiriam com ele o resultado da pescaria a tempo de a Marieta a fritar para o almoço, como ele tanto gostava.
Tinha sido uma noite de insónias, mas apesar de, ainda cedo e estar dispensada da missa, Marieta já não se deitou - foi tratar da gadagem doméstica e de seguida tomou um banho par espevitar, como precisava - no fim, olhou o seu corpo nu e viu as marcas dos desgostos porque passava - silenciosamente, falou para si mesma:
- Marieta, Marieta, quem tu eras e o quem tu és!
Apesar de desgastada pela enfermidade do marido, todos os dias rogava pela cura do homem que, com paixão, amou até ao êxtase; é o pai dos seus filhos, agora, um corpo mirrado, já sem alma, a finar-se.
Lamuriando o seu triste destino com as amigas de infância, que manifestavam pena dela, as menos submissas, às rançosas regras sociais criadas e impostas pelos homens, diziam-lhe:
- Marieta, não queiras ir com ele!
- O que posso eu fazer, é a minha sina?!
- Qual sina, qual carapuça, tira esses trapos (não eram farrapos, mas roupas adequadas às mulheres casadas de baixo estatuto social) e, não precisas sorrir, mas de nada vale chorares:
- Se é uma causa perdida, não percas a tua vida porque, só tens um!
Com a noção da desgraça que caiu sobre os seus ombros, ela passou a olhar-se ao espelho com mais regularidade e descobriu as precoces rugas no seu corpo a afundarem-se tanto que pensava estar, também ela doente.
Dias depois, em vez de pedir ao relojoeiro que trabalhava em Águeda, tomou o comboio e foi à botica buscar os medicamentos necessários ao marido; na oportunidade, pediria ao boticário qualquer coisa que atenuasse aqueles sulcos que mais pareciam fundas cicatrizes:
- Para adequar o tratamento às necessidades, o simpático farmacêutico, olhou as mãos dela e, delicadamente, perguntou-lhe a idade: - Não queria acreditar!
Trinta e cinco anos e marcas tão profundas, mãos calejadas estrias no rosto e no corpo…, mas uma mulher bonita:
- Mediu-lha a tensão e o ritmo cardíaco, espreitou-lhe o globo ocular, a língua e aconselhou um tonificante para o cérebro, outro para dar-lhe mais energia;
- Quanto a rugas, a menina entre na porta do lado.
Havia um reclame - esteticista, cabeleireira, manicura, pedicura, massagens; ela, titubeando, entrou e olhou as unhas a precisarem de limpeza e corte - pedicura não - os pés têm de ir ao curral tirar o estrume e, depois, andam sempre nas alpercatas. Mas…, que tal cortar o cabelo?!
- Logo pensou:
E como apareço na aldeia sem as minhas longas tranças?
Oh, que importa, já ninguém se lembra delas, nunca mais as desmanchei nem mesmo quando lavo a cabeça, andam prisioneiras como recordação de solteira quando era senhora do meu nariz e não prestavas contas aos ciúmes do homem!
Dentro do salão ela via-se refletida no espelho, lado a lado, com uma granfina; comparou-se e decidiu, porque não?
Ela nem é mais linda que eu!
- Vou mesmo cortar o cabelo, mas viu o seu aspeto rústico no meio daquelas citadinas; tímida, lembrou-se da regra, mulher casada, esconde os cabelos, mas logo argumentou:
- Será que estas são todas solteironas?
- Seja o que Deus quiser, mas se o Luís se apercebe do corte do meu cabelo, agora, que não tem mais força para machucar a mulher que o escolheu por amor, ele não morrerá da doença, mas de ciúmes!
(As regras que limitavam as mulheres ao cardápio de preconceitos e obrigações condenando-as à submissão total, começaram a ruir quando nas mercearias, tascas, baiúcas das aldeias e nos vendedores ambulantes, apareceram postais com as fotos de artistas de Hollyhood de angélica beleza e, o acesso da nossa juventude a esse material informativo fazia crescer, de forma irreversível, a moda de cabelos cortados; aí começou a derrocada da vilania dos homens sobres as mulheres que, todavia, ainda não acabou).
- A jovem cabeleireira, judia francesa que encontrou refúgio em Portugal durante a segunda Grande Guerra, enquanto atendia a granfina prestava atenção ao nervosismo da provinciana que esperava pela sua vez e deu-lhe uma revista para entretenimento e escolha de modelo de corte que iria substituir as longas tranças escondidas desde o dia do seu casamento:
- Madame, asseyez-vous sur cette chaise!
- Cada vez mais confusa, Marieta sentou-se; a cabeleireira tirou-lhe o lenço e abriu a água do chuveiro:
- Mas eu tomei banho em casa!
- Não vou dar-lhe banho, vou tentar libertá-la da pressão que tem nesta linda cabecinha, feche os olhos e descontraia:
- Quando a agua caia sobre a sua cabeça Marieta recordou a mãe a dar-lhe banho no pátio, dentro de uma bacia de zinco e com um púcaro a deitava água sobre os cabelos; sentiu-se nua, como naquele tempo!
- O champô da cabeleireira não fazia arder os olhos como o sabão azul que a mãe usava, mas que afugentava os piolhos:
- A francesa fez um enorme esforço para cortar aquele montão de cabelo sem desmanchar as longas tranças, e no fim entregou-as a Marieta que as conservou como o último elo com o passado!
(Continua)
Marieta não regateou esforços para fazer feliz o homem a quem prometeu estar na alegria e na tristeza, como na saúde e na doença.
Após mais uma noite de vigília a cuidar dele, manhã cedo, ouviu um surdo ruido e espreitou pelas friestas da janela - eram homens descalços que, caminhando, passavam à sua porta armados com nassas, galrichos e covos, rumo à mota do comum:
- Iam à pesca nos baixios do rio velho; as alagadiças chuvas outonais formavam lagunas onde crescia uma vegetação, macrófita aquática, composta por junco, taboa, bonho e nenúfar, o refúgio e alimento dos peixes.
Os pescadores colocavam-se em semicírculo com água pela cintura e chapinhavam até encurralarem os peixes nas armadilhas que fechavam o círculo.
Era o grupo de que o Luís fazia parte, ao domingo e só depois de missa, mas como, agora, ele não ajoelha, os colegas decidiram ir mais cedo; no regresso far-lhe-iam uma visita de cortesia e repartiriam com ele o resultado da pescaria a tempo de a Marieta a fritar para o almoço, como ele tanto gostava.
Tinha sido uma noite de insónias, mas apesar de, ainda cedo e estar dispensada da missa, Marieta já não se deitou - foi tratar da gadagem doméstica e de seguida tomou um banho par espevitar, como precisava - no fim, olhou o seu corpo nu e viu as marcas dos desgostos porque passava - silenciosamente, falou para si mesma:
- Marieta, Marieta, quem tu eras e o quem tu és!
Apesar de desgastada pela enfermidade do marido, todos os dias rogava pela cura do homem que, com paixão, amou até ao êxtase; é o pai dos seus filhos, agora, um corpo mirrado, já sem alma, a finar-se.
Lamuriando o seu triste destino com as amigas de infância, que manifestavam pena dela, as menos submissas, às rançosas regras sociais criadas e impostas pelos homens, diziam-lhe:
- Marieta, não queiras ir com ele!
- O que posso eu fazer, é a minha sina?!
- Qual sina, qual carapuça, tira esses trapos (não eram farrapos, mas roupas adequadas às mulheres casadas de baixo estatuto social) e, não precisas sorrir, mas de nada vale chorares:
- Se é uma causa perdida, não percas a tua vida porque, só tens um!
Com a noção da desgraça que caiu sobre os seus ombros, ela passou a olhar-se ao espelho com mais regularidade e descobriu as precoces rugas no seu corpo a afundarem-se tanto que pensava estar, também ela doente.
Dias depois, em vez de pedir ao relojoeiro que trabalhava em Águeda, tomou o comboio e foi à botica buscar os medicamentos necessários ao marido; na oportunidade, pediria ao boticário qualquer coisa que atenuasse aqueles sulcos que mais pareciam fundas cicatrizes:
- Para adequar o tratamento às necessidades, o simpático farmacêutico, olhou as mãos dela e, delicadamente, perguntou-lhe a idade: - Não queria acreditar!
Trinta e cinco anos e marcas tão profundas, mãos calejadas estrias no rosto e no corpo…, mas uma mulher bonita:
- Mediu-lha a tensão e o ritmo cardíaco, espreitou-lhe o globo ocular, a língua e aconselhou um tonificante para o cérebro, outro para dar-lhe mais energia;
- Quanto a rugas, a menina entre na porta do lado.
Havia um reclame - esteticista, cabeleireira, manicura, pedicura, massagens; ela, titubeando, entrou e olhou as unhas a precisarem de limpeza e corte - pedicura não - os pés têm de ir ao curral tirar o estrume e, depois, andam sempre nas alpercatas. Mas…, que tal cortar o cabelo?!
- Logo pensou:
E como apareço na aldeia sem as minhas longas tranças?
Oh, que importa, já ninguém se lembra delas, nunca mais as desmanchei nem mesmo quando lavo a cabeça, andam prisioneiras como recordação de solteira quando era senhora do meu nariz e não prestavas contas aos ciúmes do homem!
Dentro do salão ela via-se refletida no espelho, lado a lado, com uma granfina; comparou-se e decidiu, porque não?
Ela nem é mais linda que eu!
- Vou mesmo cortar o cabelo, mas viu o seu aspeto rústico no meio daquelas citadinas; tímida, lembrou-se da regra, mulher casada, esconde os cabelos, mas logo argumentou:
- Será que estas são todas solteironas?
- Seja o que Deus quiser, mas se o Luís se apercebe do corte do meu cabelo, agora, que não tem mais força para machucar a mulher que o escolheu por amor, ele não morrerá da doença, mas de ciúmes!
(As regras que limitavam as mulheres ao cardápio de preconceitos e obrigações condenando-as à submissão total, começaram a ruir quando nas mercearias, tascas, baiúcas das aldeias e nos vendedores ambulantes, apareceram postais com as fotos de artistas de Hollyhood de angélica beleza e, o acesso da nossa juventude a esse material informativo fazia crescer, de forma irreversível, a moda de cabelos cortados; aí começou a derrocada da vilania dos homens sobres as mulheres que, todavia, ainda não acabou).
- A jovem cabeleireira, judia francesa que encontrou refúgio em Portugal durante a segunda Grande Guerra, enquanto atendia a granfina prestava atenção ao nervosismo da provinciana que esperava pela sua vez e deu-lhe uma revista para entretenimento e escolha de modelo de corte que iria substituir as longas tranças escondidas desde o dia do seu casamento:
- Madame, asseyez-vous sur cette chaise!
- Cada vez mais confusa, Marieta sentou-se; a cabeleireira tirou-lhe o lenço e abriu a água do chuveiro:
- Mas eu tomei banho em casa!
- Não vou dar-lhe banho, vou tentar libertá-la da pressão que tem nesta linda cabecinha, feche os olhos e descontraia:
- Quando a agua caia sobre a sua cabeça Marieta recordou a mãe a dar-lhe banho no pátio, dentro de uma bacia de zinco e com um púcaro a deitava água sobre os cabelos; sentiu-se nua, como naquele tempo!
- O champô da cabeleireira não fazia arder os olhos como o sabão azul que a mãe usava, mas que afugentava os piolhos:
- A francesa fez um enorme esforço para cortar aquele montão de cabelo sem desmanchar as longas tranças, e no fim entregou-as a Marieta que as conservou como o último elo com o passado!
(Continua)

