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Deniz Ramos

FOTOGRAFIAS COM HISTÓRIA (2) | Deniz Ramos | A Ponte Filipina numa das mais antigas fotografias de Águeda

2020-01-14 16:56:24

Foto SP

FOTOGRAFIAS COM HISTÓRIA (2) | Deniz Ramos | A Ponte Filipina numa das mais antigas fotografias de Águeda

A fotografia que se reproduz será provavelmente uma das mais antigas que chegaram até aos nossos dias, através das quais nos é permitido termos uma ideia do que foi a vila de Agueda em oitocentos e assim complementar quanto Adolfo Portela e Serafim Soares da Graça escreveram sobre o burgo ribeirinho. De grande parte dessas fotografias centenárias não se conhece nem a data em que foram obtidas nem o nome do fotógrafo, quase sempre um amador local, que os houve e de grande merecimento. Nessas circunstâncias, é-nos apenas possível balizar a época retratada pela identificação de uma ou outra referência, para depois avançarmos, já com alguma segurança, para uma datação provável. No caso em análise, desde logo fomos forçados a concluir que as imagens, por demasiado escurecidas e imprecisas, não contribuiriam muito para os nossos propósitos. Feita, porém, a leitura possível, admitimos que a fotografia tenha sido obtida entre os finais de 1860 e o início da década de noventa. Ou seja, no decurso do período em que se verificou uma primeira intervenção para alterar a fisionomia urbana da vila depois de, em 1858 se ter retirado o trânsito das ruas estreitas ruas do interior com a abertura de uma variante, que hoje ganhou o nome de Ferraz de Macedo. A reprodução pode ser realmente de qualidade duvidosa mas, ao ler-se Portela a evocar a antiga praça aonde afluía a rua da Ponte e de onde partiam as ruas de Cima e do Barril, temos de concluir que, desde há cerca de dois séculos, a baixa de Agueda apresentaria esse "humilde aspecto de velhinha, os beirais dos telhados a esbeiçarem-se, as paredes negras a derrearem ao carrego das traves, portados primitivos roídos do caruncho.,janelos tortos... Ele era o Arco do João Ribeiro, a casa velha de Santa Ana e do Padrão.o pardieiro negro da Cardosa, a toca húmida da tia Maria de Belém, a casa da tia Rosa Bicha que já fora Hospital e, mais velha do que tudo isso, talvez a casa do Laré, a despenhar-se sobre o rio, com a sua sacada de pinho ao correr do velho Cais das Laranjeiras... E tudo isto, meio soterrado até à padieira dos portados, quase ao nível do rio, que em cada ano vinha de lá a passear-se pelas l jas e pelos primeiros andares ao borrifo das chuvas mais inocentes".
O anónimo fotógrafo apontou a sua objectiva a partir da margem esquerda do rio e, afinal, acabou por traduzir em imagens o que os olhos de Portela viram na sua infância não longe da casa onde nasceu, do outro lado da ponte, quase no termo da rua da ponte, na saída para o Sardão. Aí, em Além da Ponte, seu pai tinha uma modesta estalagem para serviço de almocreves e barqueiros. Pelos vistos, na fotografia está lá tudo o que a memória do poeta de Orvalhadas conseguiu reter e anos depois passar para as páginas do seu Agueda. É certo que o ângulo escolhido não lhe permitiu fixar a igreja de Santa Eulália e o núcleo urbano agrupado em redor do templo — a escola Conde de Ferreira, concluída em 1868, e o conjunto de residências, pardieiros e currais do passal, que foram demolidos em Novembro de 1893 para desafrontar o adro e a nova escola. Mas se o ângulo o não favoreceu, o fotógrafo ainda nos dá, em primeiro plano, a já velha ponte filipina a ligar o lugar de Além da Ponte aos primeiros prédios da baixa ribeirinha e na rua do Barril, que corria ao longo do rio até ao cruzeiro de Paredes, as modestas casas de alpendres dependurados sobre o rio. A do Laré, a que se vê na fotografia, quase soterrada até à padieira das portas, com o rio a entrar-lhe por ali dentro em incómoda visita familiar quando as águas se precipitavam com violência incontida, serras abaixo, e engrossando de iras até inundar lojas e caves nas ruas da vila. Um outro pormenor, a impor-se ao conjunto da ponte e do casario da zona ribeirinha, nos oferece o fotógrafo. Foi nesse outeiro, recortado em talhões e pequenas quintarolas, numa das três colinas por onde a vila foi crescendo, que Eduardo Caldeira, irmão do poeta e dramaturgo Fernando Caldeira e do 1.° Conde da Borralha, constituiu a sua Quinta da Alta Vila, associando várias parcelas a uma sua propriedade de herança, terra lavradia e com alguns sobreiros, talvez ainda os da fotografia. Terá sido por volta do ano de 1876 que foram iniciadas as negociações com os proprietários para a compra dessas parcelas, tendo o fidalgo da Borralha despendido dois contos, na moeda da época, evidentemente. Na altura em que foi obtida a fotografia, é provável que Eduardo Caldeira já teria iniciado o aformoseamento do seu parque. Recorda-se num jornal local o homem sensível e artista consumado que ele era e lembra-se que na organização da quinta queria presidir a tudo, desde a abertura dos arruamentos à plantação das tílias, cedros, faias, loureiros de vedação, araucárias, castanheiros da Índia, olaias, mimosas e os freixos. Era também dele próprio o desenho das áreas a arrelvar bem como a escolha dos espaços reservados aos canteiros de flores. Mesmo que se nos apresentem assim anónimas e sem data de nascença, as velhas e delidas fotografias, que em muitas arcas e sótãos teimaram em sobreviver, não deixam, por isso, de constituir contributos valiosos, os únicos disponíveis, muitas vezes, para se poder acompanhar a evolução da estrutura urbana de Águeda na segunda metade do séc. XIX. Façamos, por último, uma curta referência à ponte filipina situada na estrada maior do reino desde 1614 que, na imagem dá sinais evidentes de alguma degradação. Virá a ser substituída por uma outra no último quartel do séc. XIX. O mesmo aconteceu à ponte medieval que esteve em construção entre 1262 e 1298. Indispensável para as ligações viárias do reino, o seu deficiente estado de conservação aconselhou a que fosse substituída com urgência, É o que se conclui do alvará da chancelaria de Filipe II datado de 3 de Agosto de 1614, através do qual o monarca dá instruções ao provedor da comarca de Esgueira a que Águeda pertencia para a sua construção de raiz pois já não bastavam ligeiros trabalhos de conservação. Diz o rei:
`Eu, El-rei, faço saber a vós, provedor da comarca da vila de Esgueira, que havendo respeito às diligências que por meu mandado foram feitas acerca das obras que faltam fazer na ponte do lugar de Águeda, termo da vila de Aveiro, sobre que me escreveram os ditos oficiais da comarca da dita vila, visto as causas que alegam e as outras informações que me enviaste e autos feitos por vós e pelo corregedor da comarca da cidade de Coimbra, pelos quais constou ser muito necessário fazer-se a dita ponte de todo, por dela haver muita necessidade, por ser estrada muito frequentada de gente para as comarcas deste reino (...)"
Os trabalhos foram arrematados pelo provedor da comarca da vila de Esgueira ao mestre-de-obras Manuel Simões, morador em Águeda, pela importância de um conto duzentos e setenta mil réis. Este construtor obrigava-se a respeitar o local de assentamento, a traça e os apontamentos fornecidos, sem direito a refinta, ou seja, sem poder exigir actualização de preços, como hoje se diria. O Juiz da Terra deveria visitar a execução das obras nos dias aprazados pelo provedor, fiscalizando o trabalho dos oficiais que nela trabalhassem. Filipe II pedia rapidez: `fazendo-se tudo de maneira que se acabe em breve". Os encargos com a construção da ponte seriam suportados com as fintas que o provedor deveria lançar em forma de ordenação a diversas comarcas e provedorias, "fazendo a repartição do dito dinheiro para que igualmente pague cada comarca o que lhe couber, lançando a cada uma menos e mais conforme o serviço que tiverem para a dita ponte e possibilidade dos moradores de cada comarca(...)". A finta era uma contribuição municipal a que se recorria quando as receitas do concelho não bastavam para fazer face a encargos a que a comunidade se via obrigada e que, sozinha, era incapaz de suportar. No caso da construção da ponte de Águeda que se situava na estrada muito frequentada de gente para as comarcas deste reino, tratou-se de um tributo extraordinário imposto por decisão régia aos contribuintes das comarcas que mais a viriam a utilizar. Da finta ficavam sempre isentas determinadas pessoas pela sua qualidade ou funções que exercim, mas foram rigorosas as instruções, quer quanto ao lançamento da finta como à sua arrecadação, dadas aos provedores das comarcas do Porto, Coimbra, Leiria, Guarda, Viseu, Lamego e Miranda e das vilas comarcãs de Viana, Foz do Lima, Guimarães, Tomar, Torre de Moncorvo, Santarém, Castelo Branco e Esgueira. Era com frequência que as cidades e vilas se viam sobrecarregadas com impostos deste tipo, fosse para melhoramentos relevantes, como o da ponte sobre o Águeda, fosse, por exemplo, para as obras de arranjo dos Paços da Ribeira, condição que Filipe II colocara para honrar o seu reino português com a sua real visita, o que veio a acontecer em 1619. l DENIZ RAMOS