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Entrelinhas: António Almeida da Silva

ENTRELINHAS | António A. Silva | Recordações

2020-06-17 09:49:42

FOTO SP

ENTRELINHAS | António A. Silva | Recordações

Em 1999, a “Of12deABRIL” fez a sua primeira digressão ao Brasil.
Em 2001, na revista da segunda viagem, escrevíamos assim:

- Pela segunda vez, a “Of12deABRIL” foi convidada para participar nas Festas do Mar na cidade de Rio Grande – Brasil – cidade irmã de Águeda, fundada por portugueses e onde, como é óbvio, existe ainda hoje uma enorme comunidade de compatriotas nossos e seus descendentes.
Acompanhámos a Orquestra, assim lhe chamaram os anfitriões da cidade geminada com Águeda, Rio Grande, em 1999 e, o que por lá vimos foi, gente muito bem enquadrada naquele meio – o que se pode chamar de – Gente muito bem na vida, perfeitamente, realizados sem perder os às suas origens – Portuguesas.
Seria bom que fosse assim com todos os que um dia, por esta ou aquela razão, debandaram à procura, no desconhecido, a felicidade que lhes diziam estar para lá do mar…, infelizmente, para alguns, a realidade foi bem outra e mostra-nos, hoje, gente, completamente desenraizada da sua Pátria. Porque a sorte foi madrasta e a fortuna com que sonharam, não passou disso mesmo, um sonho lindo, mas que teve, já tarde, a terrível realidade do acordar.
Por desilusão e vergonha foram aos poucos perdendo a coragem e com ela se foi a esperança, quiçá, o interesse de alguma vez mais ouvirem o sino da sua aldeia, o chiar dos carros de bois quando à tardinha regressam ao povoado: - Até o cheiro do torrão que lhes serviu de berço, se esvaiu como fumo na ponta do cigarro!
Alguns, com filhos e netos naturalizados brasileiros, com muita dificuldade rebuscam bem no fundo das suas frustrações recalcadas por não haverem feito fortuna e, meio acabrunhados pela desventura vislumbram, num passado distante, a hora da partida, fugindo à miséria que se vivia por estas bandas, outros, nascidos já em terras de Vera Cruz, lembram apenas que são o produto dos antecessores que num dia distante foram à procura do “El Dorado”.
Há uns outros que, tímidos, cautelosamente se aproximam, sibilando palavras soltas, relativas a um passado longínquo que, propositadamente, quiseram esquecer:
-Penaliza-nos ver com que dificuldade lembram a hora da partida a carregarem consigo num enorme barco de esperança, um mundo cheio de projectos que nunca foram realizados.
- Mexem e remexem, catam e vasculha na trouxa das saudades e, o que encontram lá bem no fundo são farrapos e resquícios de ilusões a que, tantas vezes, secaram lágrimas de amargura.
Foram muitos aqueles para quem a esperança se afundou naquele mar de quimeras e só a saudade resistiu à erosão do tempo, esperança perdida, mas recordada, em cada por-do-sol, pelo murmurejar de uma onda, ao nascer de uma estrela, tudo isso dava arrepios porque lhes recordava os objectivos falhados pois a missão estava incumprida e nesses momentos o piar do mocho agourento nos píncaros da chaminé, lembrava-lhe as juras em falso e as promessas por cumprir. Era então que aflorava a saudade envolta em culpas que já não podem ser corrigidas.
Contudo, a “Of12deABRIL” deu àqueles rostos, alguns, marcadamente desventurados, uma nova expressão e a esperança, há muito perdida, e a vontade determinada de, ao menos uma vez, voltarem a respirarem este ar que é nosso e que, cheirando a pinheiros ou maresia, estrume ou rosas, é o cheiro que nos está gravado na alma e ninguém, definitivamente, se afasta dele por vontade própria, plenamente feliz e sem mais sentir na alma, essa lacuna.
Encontrámos muitos compatriotas, completamente desenraizados do seu e nosso país, mas a presença desta Orquestra avivou-lhes os sentidos há muito adormecidos e deu-lhes o ensejo de reviverem a emoção que causa uma Banda a desfilar na calçada ou uma missa cantada pelas vozes bem timbradas dos rapazes e raparigas da música a fazerem as delícias de todos os que de longe acorreram às suas actuações, fazendo vibrar, mais que os alicerces doa Catedral, os corações daqueles que, há muito, tinham esquecido a amplitude de tais sensações afogadas entre lágrimas e beijos ávidos de mais e mais, bebendo, sofregamente, cada som e cada gesto que lhes avivava a recordação das ruas íngremes da aldeia onde passava a procissão de homens com opas a esvoaçar ao vento e andores enfeitados com garridas flores bamboleantes ao ritmo dos acordes da Banda e tudo isso lhes trouxe à memória a promessa feita aos pés da santa na hora da partida e um outro segredo feito no silencio, não vá o santo do lado ficar com ciúmes. – Quando regressar, com saúde e, principalmente, rico, farei a festa a despesas minhas. E quantas mais promessas de igual fervor se fizeram, sem santos por testemunhas, que brotaram de almas angustiadas por tantas incertezas?!
Pensamentos dolorosos causados pelo insucesso fizeram noite nos seus corações e, nessa escuridão, ficaram encarceradas todas as intenções promessas, ilusões e sonhos.
Agora, que as emoções escancararam o cofre onde estes segredos permaneceram durante décadas. Agora, que os sons da Orquestra encorajaram estas almas a abrir o sacrário onde repousavam adormecidas tantas ilusões desfeitas, lembram com clareza, ainda, meio nublosa, os últimos momentos vividos entre os seus entes queridos, na hora da partida e aos poucos as recordações afloram, deslizam e jorram em catadupas límpidas e frescas como água da fonte onde saciavam a sede em dias de verão naquelas quelhas dos penhascos serranos donde há muito, se despediram.
Entre um olhar furtivo e uma lágrima traiçoeira relatam com embargo na voz, o momento em que o ronco do barco, já solto das amarras, deu início à partida: - Em terra ficavam lenços brancos a acenar e, para sempre, lágrimas sepultadas na espuma das ondas.
No convés apinhava-se uma amálgama de corpos desesperados em cenas pungentes - mais que as ondas eram os soluços de quem partia que faziam baloiçar o barco - até que, na distância já longa, uma onda mais alta lhes tirou a visão dos seus, alguns, para sempre.
Na praia, olhava-se o baco até desaparecer a última vela e tudo se foi, menos a esperança dos que viram uma parte de si partir.
Há quem acredite que, ainda hoje, os que ao amanhecer se aproximam do cais, sentem, entre o rugir das ondas e o chiar lúgubre das gaivotas, os gemidos duma noiva esquecida, dum filho abandonado, duma esposa enlutada, duma mãe amargurada e incrédula de morrer com o seu filho por longe e que, à luz da vela, pede ao senhor da Boa Viagem que a sua luminosidade o acompanhe para sempre.
Os que partiram saciaram a sua sede nas gotas da esperança com que aquele mar salgado lhe salpicava o rosto. Os que ficaram comeram o pão amassado com lágrimas de sangue de corações destroçados, mas a “Of12deABRIL”, reavivou sentimentos, encorajou almas e estreitou laços de amizade que proporcionaram o reabilitar de relações entre estes dois povos que se sentem tão brasileiros como os brasileiros, tão portugueses como os portugueses.
Que seja assim por mais Quinhentos Anos!
ANTÓNIO A. SILVA
(Coordenador desta aventura)