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Jorge Castro

OPINIÃO | Jorge Castro | Gente quase educada

2020-07-29 10:02:28

OPINIÃO | Jorge Castro | Gente quase educada

- Mesa para quatro, por favor! Era um homem alto e gordo, vestido de moda cara, bem bronzeado pelo sol tórrido dos últimos dias. Num tom de voz altivo e grosso, apontava a mesa de esplanada que tinha reservado.
- Com certeza! – Afirmou prontamente o empregado de mesa, vestido a rigor, com máscara e avental preto da moda, num aceno bem curvado. – Por favor, acompanhem-me.
O distinto casal, acompanhado de duas crianças agarrados aos seus smartfones, seguiu em fila ordenada e barulhenta o empregado. Sentaram-se todos, com grande alarido, na mesa que parecia também ela, lá num canto de cima, a mais distinta daquele espaço.
O restaurante estava cheio de gente. Os medos virais não pareciam perturbar os comensais. Todos sorriam e falavam alegremente. Gente vestida com as cores vivas da moda, afastavam para longe as perturbações pandémicas dos nossos tempos.
Entretanto, ia chegando mais e mais gente para jantar. Davam o nome para a lista e faziam fila na entrada. O controle de entradas estava a funcionar. E só quando saísse gente, podia entrar mais.
As gentes que saiam, via-se que estavam satisfeitas. Tinham comido bem, independentemente do preço que tinham pago. Afinal, aquele restaurante, apesar de ser novo, é bem conceituado, fazendo já parte dos roteiros da gente na moda.
Um algaraviado intenso chamou entretanto a atenção de todos. Era mais uma família que chegava. Alegre e bem disposta, pois claro. Era também um casal acompanhado supostamente pelos seus dois filhos. Percebia-se a sua alegria genuína, provavelmente porque tinham tido um dia fantástico de praia. Pelo menos estavam todos bem queimadinhos na cara.
- Mas não têm mesa disponível como, se ali ao fundo vejo duas livres? – Perguntava o recém-chegado senhor ao empregado que tinha por missão levar as pessoas a sentar-se.
- São duas mesas reservadas. – Desculpava-se nítida e atabalhoadamente o empregado.
Aquela família, à porta, meia lá fora, meia lá dentro, estava como naquela estória do ‘tolo no meio da ponte’. Eles ainda não tinham perdido a alegria e a boa disposição, mas percebia-se que alguma coisa estaria para acontecer se nada fosse feito da parte do restaurante.
- Mas se ainda há cerca de uma hora atrás, quando por aqui passei, as mesas estavam vazias, e são já quase onze horas da noite, a que horas é que as mesas vão ser ocupadas? – Insistia já sem sorrir o aparente chefe daquela família faminta.
- São as ordens que tenho, senhor. – De maneira ainda mais esfarrapada o empregado voltou a desculpar-se.
Entretanto, para sossego de todos, vagou uma mesa logo ali ao lado, e aquela família já impaciente sentou-se de imediato toda contente.
Lá ao fundo, entre as duas mesas vazias, a outra família continuava distinta. Mas agora em silêncio uns com os outros. Aos adultos, tinham-se juntado mais dois adultos, empregados, que, em pé, de um lado e doutro, os iam atufando de bebidas e de comidas. Pareciam coisas caras. Muito caras.
As crianças continuavam alheadas de tudo, a empanturrarem-se com a esperteza das suas máquinas comunicantes. Os adultos não falavam entre si. Nem com ninguém. Faziam gestos com as mãos no ar aos empregados.
E as duas mesas, que continuavam desocupadas, uma de cada lado na frente da sua mesa ocupada, pareciam duas torres de vigia, duas fortalezas.
Na mesa cá debaixo, a família continuava alegre, todos bem dispostos. Os miúdos, tão da idade dos da mesa lá de cima, espertavam-se com a conversa em família. Riam-se uns com os outros por entre as espetadas a baloiçar no centro da mesa.
Tempo vai, tempo volta, a família de cima saiu do restaurante. Ordenada, com o homem à frente, seguida da mulher e com os miúdos atrás em modo ‘teclar-bipolegar’.
A família de baixo pediu a conta. O empregado, meio envergonhado, desculpou-se: - Os senhores desculpem. Não sei se perceberam quem eram aqueles. É que eles reservaram as três mesas. Pagaram o espaço. Eles não queriam ser incomodados. E também estão com medo da bicharada.
Gente quase educada.
JORGE DE ALMEIDA CASTRO
(Administrador do IDL)