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Jorge Castro

OPINIÃO | Jorge Castro | Gente quase educada

2020-06-17 09:53:01

FOTO SP

OPINIÃO | Jorge Castro | Gente quase educada

Cristiana é uma bonita rapariga, de dezassete anos, filha única. É uma jovem simpática e amiga dos seus amigos. Todos lhe querem muito bem. Frequenta o décimo primeiro ano de escolaridade na escola onde a mãe é professora e, ao contrário do que esta queria, não é a melhor aluna da turma.
Os tempos estranhos e desatinados que estamos a viver têm trazido muito desacerto e desconforto e esta família.
Apesar de menos aulas, a verdade é que a Cristiana ainda não conseguiu organizar a sua nova vida escolar. Até há pouco tempo tudo parecia bater certo, vivia numa ansiedade mais ou menos controlada, ainda que não percebesse bem como.
Depois do amontoado de aulas que agora tem dia-sim-dia-não, os trabalhos de casa da Cristiana são feitos disciplinarmente debaixo da vigilância estreita da sua mãe que está sem dar aulas há já quase quatro meses.
Em noites que parecem dias, a Cristiana vê questionado e inspecionado todo o seu trabalho diário e extraordinário. Nestas inspeções a tensão é grande e, em geral, acabam na enervação de todos lá de casa.
Em busca das melhores notas que a mãe exige, a escola da Cristiana prolonga-se e confunde-se com a sua vida familiar. Como se não bastasse, a escola de línguas e o conservatório de música concorrem para tapar todos os furos da sua preenchida viva. O sentido anunciado pela mãe é o de evitar o mau uso do tempo livre da filha. Afinal, a Cristiana vive em confinamento há já muitos anos.
Em função dos resultados escolares e das outras atividades, as dádivas e os castigos estão sempre presentes na vida da Cristiana. Umas vezes a paga é feita com roupas ditas de marca e coisas pessoais caras para usar em certas ocasiões, outras vezes é castigada a ficar em casa e a estudar ao fim de semana, porque a semana a seguir é de testes. Tem ainda um outro prémio que a mãe usa muito: o dinheiro que lhe dá e que a obriga a depositar no mealheiro de que tem a chave. Diz que é para um dia ela poder ter e usar, quando for de maior idade, quando for mais responsável.
A Cristiana vai sentindo-se cada vez mais com pouca ou nenhuma liberdade de jovem que é. Mesmo lá em casa, onde não está autorizada a mexer em nada, sente-se a mais. Sempre lhe foi dito que a lida da casa é para as criadas (já por lá passaram muitas e todas saíram a mal, por se darem mal com o feitio da mãe). Todo o tempo caseiro é para ser ocupado com o estudo das ciências e das matemáticas que um dia a deverão levar à medicina, cumprindo a tradição da família por parte do pai.
A Cristiana vai sentindo o trabalho escolar não como uma realização pessoal, mas sim como uma sujeição que lhe é imposta, um objetivo que dá realização à sua mãe. Sobretudo à sua mãe, já que pelo pai, a filha deveria sair mais vezes com os amigos e experimentar os próprios ambientes para a sua idade. Como ele diz: - queria vê-la feliz!
A Cristiana começa a não gostar da escola. Aliás, já no ano letivo passado o terceiro período foi terrível. E agora, neste ano, parece que as coisas vão correr mesmo mal. Ou pelo menos vão ficar muito longe do que a mãe queria.
Depois, ainda para piorar as coisas, os encontros de música que a mãe lhe concerta aos fins de semana – agora pela via virtual – têm contribuído para que a Cristiana conviva cada vez menos com os poucos amigos de quem gosta e com quem gostaria de estar em tempo e modo próprios.
E a Cristiana sente-se a perder e perdida com tudo isto. Até já sente que não é capaz de fazer muitas das coisas simples e normais que os amigos e colegas da idade dela dizem que fazem. Sente-se cada vez mais dependente da mãe. E não é só pela boleia diária casa-escola-casa que a mãe lhe dá, apesar de viverem a pouco mais de meio quilómetro da escola.
Um destes dias, um amigo tentou chamar a mãe à razão: - olha que a escola e a família, apesar de deverem estar próximas, são diferentes, têm funções diferentes; na escola a tua filha devia descansar da família e em casa devia descansar da escola.
Pois. Digo eu. É que educação familiar, mais educação escolar, mais educação para a vida, é muita coisa junta. São coisas de muita obra e para muito engenho!
E vem-me à memória a estória dum outro jovem rapaz que um dia decidiu acabar com tudo. Decidiu acabar consigo e com todos. Uma decisão que afinal não foi sua.
Gente quase educada.
JORGE DE ALMEIDA CASTRO
(Administrador do Instituto Duarte de Lemos)