AMBIENTE
“Se não fizermos nada agora, daqui a cinco anos volta tudo a arder”
Meses depois do grande incêndio que marcou setembro de 2024 no concelho de Águeda, o alerta continua a ecoar entre quem vive nas aldeias mais afetadas. Gente que vive em sobressalto quando chega o tempo mais quente, inquietude de quem viveu de perto o flagelo das chamas e temeu mesmo o pior dos desfechos. Para Sérgio Almeida, a verdadeira resposta ao problema não está apenas nos meios de combate mas numa transformação profunda da paisagem e da consciência das comunidades.
“Podemos gastar milhões no combate aos incêndios, mas com esta paisagem, com a paisagem que temos à nossa volta, não vale de nada”, afirma a SP. Na sua visão, o problema é estrutural. As áreas florestais que rodeiam muitas aldeias continuam dominadas por espécies altamente combustíveis, criando um cenário que, em caso de novo fogo, pode gerar situações de grande perigo.
“Não podemos continuar a ter isto à porta das nossas casas. Este tipo de paisagem é fósforo para arder”, alerta.
O CICLO QUE O FOGO ALIMENTA
Depois de um incêndio, explica, o território torna-se ainda mais vulnerável. Espécies como o eucalipto e a acácia regeneram rapidamente e ocupam o espaço de forma descontrolada.
“As sementes podem estar anos no solo. Quando passa o fogo, encontram as condições ideais para germinar. Se não controlarmos estas espécies nos primeiros dois anos depois do incêndio, vamos ficar com uma densidade de eucalipto junto às aldeias que depois é praticamente impossível gerir”.
É por isso que, desde 2024, a Associação de Desenvolvimento e Proteção Local das Póvoas (ADPLP) vem intervindo em várias aldeias, arrancando eucaliptos e acácias, criando buffers de proteção e plantando espécies autóctones junto às casas, estradas e linhas de água.
“Estamos a falar de hectares de terreno que antes estavam completamente descontrolados. Só hoje (n.d.r.: no sábado em que SP de deslocou a Moutedo) arrancámos mais de 2 mil eucaliptos neste espaço, mas este trabalho é contínuo”, sublinha.
A ALTERNATIVA: DIVERSIDADE E ESPÉCIES AUTÓCTONES
A solução defendida passa por criar uma paisagem mais diversificada, onde carvalhos, sobreiros, medronheiros e freixos tenham maior presença. Estas árvores, além de mais resistentes ao fogo, desempenham papel importante na proteção do solo, da água e da biodiversidade.
“O carvalho, por exemplo, produz uma madeira nobre e de grande valor económico. Não é um retorno em cinco anos, é um retorno em quarenta ou cinquenta. Mas é um investimento no futuro”, sublinha.
Ainda assim, Sérgio Almeida deixa claro que o objetivo não é eliminar totalmente o eucalipto. “O problema não é existir eucalipto. O problema é existir eucalipto em todo o lado, junto às aldeias, estradas e linhas de água, onde pode alimentar o fogo de forma descontrolada”.
Leia o artigo completo na edição n.º 9419 de Soberania do Povo, impressa ou digital

