Manuel Farias .. Tribuna Própria
DEIXAR ARDER QUE É MATO (?...)
08 de julho de 2026Deixa arder, que é mato” tornou-se a normalidade da Proteção Civil nos últimos dois ou três anos.
Percebemos que o objectivo é proteger pessoas e habitações; exclusivamente. Deste modo, os decisores operacionais e a responsabilidade política do governo procuram atravessar incólumes as labaredas que queimam o mundo rural.
Há um ano, aconteceram alguns casos fatais, mas foram raros e uma parte significativa resultou de acidentes. Já no que respeita a habitações, não podemos dizer o mesmo, porque o “deixa arder que é mato” tem casas misturadas ou imediatamente expostas. No balanço, o governo reclamou sucesso na proteção civil, porque apenas houve vítimas circunstanciais e as aldeias foram protegidas.
Contudo, para além da aldeia física, existe o modo de vida que permite a existência da aldeia e as actividades económicas que a sustentam; é a alma identitária que as diferencia, promove e motiva.
Em 2025, com o “deixa arder que é mato”, foi queimada a produção artesanal de queijo da serra, o mel das aldeias de xisto da Lousã, o vinho regional das Beiras, as maçãs bravo de esmolfe da montanha, o cabrito assado serrano, o pão de centeio, a aguardente de zimbro, o coelho à caçador, as castanhas e os seus derivados, o turismo de natureza do interior… ficaram aldeias intactas, mas menos sustentáveis e mais desertas.
Na semana passada, foi a nossa vez de experimentar o paradigma do “deixa arder que é mato”, dentro do município de Águeda e dos de Vouzela e Tondela, porque esta abordagem é democrática.
Tudo ardeu em volta e muitas vezes dentro de Maceira de Alcoba, da Urgueira, da Barrosa, do Salgueiro, de Cabeço de Cão, das Pousadas, de Vale do Lobo, do Casal, de Cambra, da Sernada, da Serra de Cima, de Lourizela, de Vale d´Égua, do Préstimo, de Rio de Maçãs, do Carvalhal, dos Avelais, da Corga da Serra, do Bertufo, da Boa Aldeia, de Alcafaz, da Talhada, da Castanheira do Vouga, das Massadas, de Vale da Galega, da Maçoida, da Giesteira, de Rio Covo, das Cavadas, de Vale Sobreirinho, de Vale Domingos, do Gravanço… e também com uma boa abordagem a Águeda, essa aldeia com muitas casas, ainda atafulhadas dentro dos limites da vila.
Não se constrói uma floresta diferente, sem incluir a floresta na proteção civil; tal como não se inverte a desertificação das pequenas ou grandes aldeias, sem cuidar da sustentabilidade económica e da preservação do modo de vida, que tem história milenar e ainda conserva virtudes para fixar famílias e manter as aldeias vivas, coesas e invejáveis na qualidade das suas produções e da harmonia social.
É necessário interromper a monocultura florestal?... é! Os aceiros corta-fogo são falados e prometidos há décadas?... são! Os decisores operacionais e os responsáveis políticos procuram proteger as pessoas?... sim! Importam-se com o modo de vida do mundo rural?... não! Não, até ao dia em que lhes faltar queijo da serra, cabrito, chanfana, vinho do Dão ou strudel de maçãs de Moimenta da Beira (embora sejam originárias da aldeia de Esmolfe, em Penalva do Castelo).
É a zona de conforto dos governos: não ter notícias de pessoas mortas ou de aldeias queimadas.
Nunca um ministro se lambuzou com chanfana no Teixo, trincou a textura inigualável e alva de queijo fresco do Mosteirinho ou palitou os dentes februdos de paio enfumado com madeira de carvalho negral de Alcafaz. Não chegam à mesa dos eleitos de S. Bento, mas apenas aos eleitos da vizinhança serrana e dos turistas de natureza, que se tornarão tão escassos como a chanfana, o queijo fresco ou o paio.
Uma aldeia segura é uma aldeia onde os seus habitantes e o seu modo de vida estão solidária e igualmente protegidos, sem que nenhum deles arda. É urgente rever a definição de aldeia segura.
Percebemos que o objectivo é proteger pessoas e habitações; exclusivamente. Deste modo, os decisores operacionais e a responsabilidade política do governo procuram atravessar incólumes as labaredas que queimam o mundo rural.
Há um ano, aconteceram alguns casos fatais, mas foram raros e uma parte significativa resultou de acidentes. Já no que respeita a habitações, não podemos dizer o mesmo, porque o “deixa arder que é mato” tem casas misturadas ou imediatamente expostas. No balanço, o governo reclamou sucesso na proteção civil, porque apenas houve vítimas circunstanciais e as aldeias foram protegidas.
Contudo, para além da aldeia física, existe o modo de vida que permite a existência da aldeia e as actividades económicas que a sustentam; é a alma identitária que as diferencia, promove e motiva.
Em 2025, com o “deixa arder que é mato”, foi queimada a produção artesanal de queijo da serra, o mel das aldeias de xisto da Lousã, o vinho regional das Beiras, as maçãs bravo de esmolfe da montanha, o cabrito assado serrano, o pão de centeio, a aguardente de zimbro, o coelho à caçador, as castanhas e os seus derivados, o turismo de natureza do interior… ficaram aldeias intactas, mas menos sustentáveis e mais desertas.
Na semana passada, foi a nossa vez de experimentar o paradigma do “deixa arder que é mato”, dentro do município de Águeda e dos de Vouzela e Tondela, porque esta abordagem é democrática.
Tudo ardeu em volta e muitas vezes dentro de Maceira de Alcoba, da Urgueira, da Barrosa, do Salgueiro, de Cabeço de Cão, das Pousadas, de Vale do Lobo, do Casal, de Cambra, da Sernada, da Serra de Cima, de Lourizela, de Vale d´Égua, do Préstimo, de Rio de Maçãs, do Carvalhal, dos Avelais, da Corga da Serra, do Bertufo, da Boa Aldeia, de Alcafaz, da Talhada, da Castanheira do Vouga, das Massadas, de Vale da Galega, da Maçoida, da Giesteira, de Rio Covo, das Cavadas, de Vale Sobreirinho, de Vale Domingos, do Gravanço… e também com uma boa abordagem a Águeda, essa aldeia com muitas casas, ainda atafulhadas dentro dos limites da vila.
Não se constrói uma floresta diferente, sem incluir a floresta na proteção civil; tal como não se inverte a desertificação das pequenas ou grandes aldeias, sem cuidar da sustentabilidade económica e da preservação do modo de vida, que tem história milenar e ainda conserva virtudes para fixar famílias e manter as aldeias vivas, coesas e invejáveis na qualidade das suas produções e da harmonia social.
É necessário interromper a monocultura florestal?... é! Os aceiros corta-fogo são falados e prometidos há décadas?... são! Os decisores operacionais e os responsáveis políticos procuram proteger as pessoas?... sim! Importam-se com o modo de vida do mundo rural?... não! Não, até ao dia em que lhes faltar queijo da serra, cabrito, chanfana, vinho do Dão ou strudel de maçãs de Moimenta da Beira (embora sejam originárias da aldeia de Esmolfe, em Penalva do Castelo).
É a zona de conforto dos governos: não ter notícias de pessoas mortas ou de aldeias queimadas.
Nunca um ministro se lambuzou com chanfana no Teixo, trincou a textura inigualável e alva de queijo fresco do Mosteirinho ou palitou os dentes februdos de paio enfumado com madeira de carvalho negral de Alcafaz. Não chegam à mesa dos eleitos de S. Bento, mas apenas aos eleitos da vizinhança serrana e dos turistas de natureza, que se tornarão tão escassos como a chanfana, o queijo fresco ou o paio.
Uma aldeia segura é uma aldeia onde os seus habitantes e o seu modo de vida estão solidária e igualmente protegidos, sem que nenhum deles arda. É urgente rever a definição de aldeia segura.

