À entrada do Museu Ferroviário de Macinhata do Vouga, a página amarelada do antigo matutino O Primeiro de Janeiro detém quem passa. É a edição de 21 de janeiro de 1966. Manchete nacional. Fotografias a preto e branco. Três mortos, dezenas de feridos, uma linha interrompida entre a rotina e a tragédia. Sessenta anos depois, naquele mesmo lugar, a memória volta a circular — desta vez pelas palavras.
Amílcar Rodrigues, 84 anos, olha para o jornal com a contenção de quem cresceu entre carris. O pai, José Rodrigues, era maquinista. “Os maquinistas eram família. Os ferroviários eram família”, diz. O que poucos sabem é que o pai não era para estar naquele comboio. O comboio das sete da manhã — o que levava sobretudo trabalhadores para Águeda — acabou por ser o último.
O serviço habitual de José Rodrigues era no comboio das seis da manhã, tendo como passageiros habituais trabalhadores sobretudo para empresas de Aveiro. Esse comboio passou sem qualquer problema.
Porém, José Rodrigues não chegou a tempo a Sernada do Vouga, onde se inicia a marcha das composições para Águeda e Aveiro. Foi então chamado António Santiago, maquinista que morava em Jafafe, mais próximo da estação, para assegurar esse serviço das seis. António Santiago não era irmão de José Rodrigues — era colega de profissão, parte dessa “família” ferroviária que se substituía quando era preciso.
José Rodrigues acabou por assumir o comboio seguinte, o das sete da manhã. Foi esse que encontrou o destino interrompido.
O HOMEM QUE TENTOU EVITAR O DESASTRE
Nessa madrugada, choveu intensamente. A água ficou represada junto à linha, escavou a areia por baixo dos carris, e o terreno - ali ao lado do atual cemitério de São Pedro - acabaria por ceder antes da chegada do comboio. Um morador vizinho da via, Alberto Carlos de Melo, apercebeu-se da derrocada e correu pela linha fora, na tentativa desesperada de fazer parar a composição a tempo. Gesticulou, gritou, avançou em direção às caselas da Alagoa. Não conseguiu chegar. No jornal do dia seguinte ficaria como “o homem que tentou evitar o desastre”.
O comboio acabou por atingir o vazio já aberto. A locomotiva e as carruagens de terceira classe precipitaram-se na derrocada; apenas a carruagem de primeira classe ficou encavalitada à beira do precipício. “Foi a nossa sorte, não ter ido por ali abaixo; esmagava-nos!”. O acidente consumou-se ali, às portas de Águeda.
A EXTREMA-UNÇÃO A UM DOS SOBREVIVENTES
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