Paulo Sucena (Dr)
DENIZ RAMOS, MEMÓRIA DA ILHA, 2025
01 de julho de 2026Deniz Ramos traz a público, em boa hora, um livro de poesia, porventura a face mais oculta do escritor, extremamente interessante sob múltiplos aspectos. Desde logo, porque permite ver a evolução da sua poesia de 1969 a 1988.
Deste último ano, falaremos posteriormente de quatro conjuntos de poemas. Por agora vamos centrar-nos nos treze poemas dedicados à ilha de Moçambique, escritos em 1969, cada um deles numa só estrofe, com um número variável de versos (de onze a quinze), que primam pela sobriedade formal num estilo, por vezes, elíptico, mas suportado por um eficiente recurso aos códigos retóricos.
2. Neste primeiro segmento do livro em apreço deparamos com uma busca da memória daquilo que a ilha de Moçambique nela deixou, não obstante o poeta saber que «envelhece o fogo / na oficina da memória», onde há um «rumor de silêncios / larvando a pedra / rude do texto». O verbo “larvar” aponta para que o poema surge após a memória da ilha agir de forma oculta e produtiva na antecâmara das palavras, essa «crisálida» que o poeta desvela. Eis alguns exemplos: a lembrança do mar «ou apenas o mar / por dentro do poema / marulhando de sílabas / a noturna luz»; a lembrança do vento e das estrelas «Então quando / nada se move a asa a folha / a superfície líquida; / então o golpe / súbito / do vento flagelando / a haste desamparada» que cresceu na ilha onde «Estrelas humedeceram / em tuas águas.».
3. Queremos ainda chamar a atenção para dois aspectos deste conjunto de poemas. O primeiro prende-se com uma revisita ao amor em que o poeta proclama «que mais posso ousar / se vi a morte em meus olhos / e era nos teus / que morríamos / sobreviventes / da noite / que amanhece» e pergunta «saberás dos trilhos / nos passos ásperos / furtivos / sinais domésticos / abrindo-se / e no rumor ágil / envolvendo-nos?». E mais adiante pergunta à destinatária se ouve «a voz calcária / de um poeta / quem sabe se a minha / a enfurecer-se / em teu ventre?».
4. Por último, referimos duas breves reflexões de Deniz Ramos sobre a criação poética. A primeira explicitada nestes versos «Eis o verso suspenso / em sua haste; / ainda não a flecha no arco / reteso em seu limite; / antes o frémito / endurecendo os dedos / sobre a clave / onde o poema / endurece no chão / matricial.». A segunda, nestes: «cintilam anjos tutelares / na suave língua / das paredes salitradas; / partilho a presença / suspeita; / de novo a sílaba inicial.». Ou seja, Deniz Ramos considera que o poeta é um artesão (il miglior fabbro) bafejado pelo sopro de «anjos tutelares».
5. Antes de abordarmos dois excelentes exemplos de uma prática intertextual, com que finalizaremos este texto, seria injusto deixar sem qualquer alusão o poema “Imprecações em Voz Própria”, onde se inscreve uma pungente evocação de Camões, «Nem a pátria sobreviveu contigo / e morres cada dia na pedra de lioz». «Que nos valeu passar a Taprobana / se estamos irremediavelmente sós / nesta praia que contigo foi lusitana?».
Noutro segmento do livro em apreço, intitulado “Para a Memória Última da Ilha”, o poeta volta à temática da ilha de Moçambique num poema de cuja narratividade, esmaltada de imagens, aliterações, metáforas e metonímias, ressuma um lastro de desolação, numa referência indirecta à guerra colonial, em versos como estes: «Por sobre os abandonos, sobre a nudez / da pedra calcinada nas cantarias frias / estala súbito o cristal de mil mortes». Sublinho ainda que o poeta também lança um olhar sobre um melancólico tempo posterior em que na ilha, que surge personificada em mais do que um poema, «pulsa uma harpa de relva / a recuperar o sabor e o asco, bálsamo / permitido para as feridas recentes / que se ocultam em tuas espáduas.».
Em “Lamentações Junto aos Rios
Turvos”, um longo, complexo e belo poema, porventura o momento mais alto deste livro, poema em que Deniz Ramos institui um narratário interno (Quem será? Descubra o leitor), deparamos também com alusões à guerra colonial em versos que reflectem uma memória do passado e um propósito do presente. Exemplificando: «Aquece em tuas mãos o perfume tão fam\iliar / das feridas abertas»; «Tu viste o fogo e as searas de cinza, / o extermínio, o silêncio dos silêncios» (haverá silêncio maior do que o da morte?); «secaram os rios em teus flancos, / emudeceram plantas e azagaias»; «e, de novo, lavraremos / o rosado orvalho das cicatrizes.».
6. Terminamos a apresentação de Memória da Ilha com um breve comentário sobre dois poemas “Novas Lamentações em outras Vozes” e “POST- SCRIPTUM, dois excelentes exercícios de intertextualidade em que Deniz Ramos se revela um leitor emérito, com uma extraordinária capacidade de absorver a poesia de outros poetas, de tal modo que ela como que fica a fazer parte do seu arcaz poético.
O primeiro poema patenteia uma prodigiosa associação de versos de vários poetas, nacionais e estrangeiros, e de vários livros. Não é necessário percorrer o poema todo para provocarmos o espanto do leitor, basta termos em conta o início do poema, em que vamos identificar os autores dos versos.
«Morrendo, estamos morrendo, agora só nos resta / aceitar a morte, (David H. Lawrence) misturando a memória e o desejo, / atiçando as raízes inertes com a chuva da primavera (T.S. Eliot). Está gente a morrer agora mesmo em qualquer lado, / está gente a morrer e nós também (M. Alegre). Pensa em Phelas, que foi em tempos alto e belo como tu (T.S. Eliot). Em ti choramos os outros mortos todos (Sophia de Melo Breyner). E tinha valido a pena depois de tudo, tinha valido mesmo a pena. (T.S. Eliot), (versos de um livro diferente do da primeira citação). Nunca até hoje eu morri tanto em alguém. (Ruy Belo), na mais longa viagem para o esquecimento.» (David H. Lawrence).
Só um grande leitor de poesia seria capaz de fazer este espantoso entrelaçar de versos e poetas, com o requinte de abrir e fechar a estrofe com versos do mesmo poeta, invertendo curiosamente a ordem com que aparecem no livro “A Barca da Morte”, de David H. Lawrence. O primeiro é da VII Secção e o último da V.
Tudo neste livro é maduramente pensado até ao poema final, POST-SCRIPTON, que também é o título do poema com que Manuel Alegre encerra Praça da Canção. Esse é outro magnífico exemplo de intertextualidade, produzido por quem conhece profundamente a obra do poeta da resistência e da liberdade.
Deniz Ramos usa com subtil sabedoria versos ou apenas palavras de Manuel Alegre que enlaça com palavras suas, cujo resultado final é uma pungente elegia iniciado com um verso do livro Chegar Aqui e terminado com um verso, de uma só palavra usada também por Manuel Alegre no mesmo livro. É justo concluir esta proposta de leitura de Memória da Ilha, com a afirmação de que este é um livro singular porque reitera a qualidade do poeta e mostra a sua face de grande leitor de poesia.
Deste último ano, falaremos posteriormente de quatro conjuntos de poemas. Por agora vamos centrar-nos nos treze poemas dedicados à ilha de Moçambique, escritos em 1969, cada um deles numa só estrofe, com um número variável de versos (de onze a quinze), que primam pela sobriedade formal num estilo, por vezes, elíptico, mas suportado por um eficiente recurso aos códigos retóricos.
2. Neste primeiro segmento do livro em apreço deparamos com uma busca da memória daquilo que a ilha de Moçambique nela deixou, não obstante o poeta saber que «envelhece o fogo / na oficina da memória», onde há um «rumor de silêncios / larvando a pedra / rude do texto». O verbo “larvar” aponta para que o poema surge após a memória da ilha agir de forma oculta e produtiva na antecâmara das palavras, essa «crisálida» que o poeta desvela. Eis alguns exemplos: a lembrança do mar «ou apenas o mar / por dentro do poema / marulhando de sílabas / a noturna luz»; a lembrança do vento e das estrelas «Então quando / nada se move a asa a folha / a superfície líquida; / então o golpe / súbito / do vento flagelando / a haste desamparada» que cresceu na ilha onde «Estrelas humedeceram / em tuas águas.».
3. Queremos ainda chamar a atenção para dois aspectos deste conjunto de poemas. O primeiro prende-se com uma revisita ao amor em que o poeta proclama «que mais posso ousar / se vi a morte em meus olhos / e era nos teus / que morríamos / sobreviventes / da noite / que amanhece» e pergunta «saberás dos trilhos / nos passos ásperos / furtivos / sinais domésticos / abrindo-se / e no rumor ágil / envolvendo-nos?». E mais adiante pergunta à destinatária se ouve «a voz calcária / de um poeta / quem sabe se a minha / a enfurecer-se / em teu ventre?».
4. Por último, referimos duas breves reflexões de Deniz Ramos sobre a criação poética. A primeira explicitada nestes versos «Eis o verso suspenso / em sua haste; / ainda não a flecha no arco / reteso em seu limite; / antes o frémito / endurecendo os dedos / sobre a clave / onde o poema / endurece no chão / matricial.». A segunda, nestes: «cintilam anjos tutelares / na suave língua / das paredes salitradas; / partilho a presença / suspeita; / de novo a sílaba inicial.». Ou seja, Deniz Ramos considera que o poeta é um artesão (il miglior fabbro) bafejado pelo sopro de «anjos tutelares».
5. Antes de abordarmos dois excelentes exemplos de uma prática intertextual, com que finalizaremos este texto, seria injusto deixar sem qualquer alusão o poema “Imprecações em Voz Própria”, onde se inscreve uma pungente evocação de Camões, «Nem a pátria sobreviveu contigo / e morres cada dia na pedra de lioz». «Que nos valeu passar a Taprobana / se estamos irremediavelmente sós / nesta praia que contigo foi lusitana?».
Noutro segmento do livro em apreço, intitulado “Para a Memória Última da Ilha”, o poeta volta à temática da ilha de Moçambique num poema de cuja narratividade, esmaltada de imagens, aliterações, metáforas e metonímias, ressuma um lastro de desolação, numa referência indirecta à guerra colonial, em versos como estes: «Por sobre os abandonos, sobre a nudez / da pedra calcinada nas cantarias frias / estala súbito o cristal de mil mortes». Sublinho ainda que o poeta também lança um olhar sobre um melancólico tempo posterior em que na ilha, que surge personificada em mais do que um poema, «pulsa uma harpa de relva / a recuperar o sabor e o asco, bálsamo / permitido para as feridas recentes / que se ocultam em tuas espáduas.».
Em “Lamentações Junto aos Rios
Turvos”, um longo, complexo e belo poema, porventura o momento mais alto deste livro, poema em que Deniz Ramos institui um narratário interno (Quem será? Descubra o leitor), deparamos também com alusões à guerra colonial em versos que reflectem uma memória do passado e um propósito do presente. Exemplificando: «Aquece em tuas mãos o perfume tão fam\iliar / das feridas abertas»; «Tu viste o fogo e as searas de cinza, / o extermínio, o silêncio dos silêncios» (haverá silêncio maior do que o da morte?); «secaram os rios em teus flancos, / emudeceram plantas e azagaias»; «e, de novo, lavraremos / o rosado orvalho das cicatrizes.».
6. Terminamos a apresentação de Memória da Ilha com um breve comentário sobre dois poemas “Novas Lamentações em outras Vozes” e “POST- SCRIPTUM, dois excelentes exercícios de intertextualidade em que Deniz Ramos se revela um leitor emérito, com uma extraordinária capacidade de absorver a poesia de outros poetas, de tal modo que ela como que fica a fazer parte do seu arcaz poético.
O primeiro poema patenteia uma prodigiosa associação de versos de vários poetas, nacionais e estrangeiros, e de vários livros. Não é necessário percorrer o poema todo para provocarmos o espanto do leitor, basta termos em conta o início do poema, em que vamos identificar os autores dos versos.
«Morrendo, estamos morrendo, agora só nos resta / aceitar a morte, (David H. Lawrence) misturando a memória e o desejo, / atiçando as raízes inertes com a chuva da primavera (T.S. Eliot). Está gente a morrer agora mesmo em qualquer lado, / está gente a morrer e nós também (M. Alegre). Pensa em Phelas, que foi em tempos alto e belo como tu (T.S. Eliot). Em ti choramos os outros mortos todos (Sophia de Melo Breyner). E tinha valido a pena depois de tudo, tinha valido mesmo a pena. (T.S. Eliot), (versos de um livro diferente do da primeira citação). Nunca até hoje eu morri tanto em alguém. (Ruy Belo), na mais longa viagem para o esquecimento.» (David H. Lawrence).
Só um grande leitor de poesia seria capaz de fazer este espantoso entrelaçar de versos e poetas, com o requinte de abrir e fechar a estrofe com versos do mesmo poeta, invertendo curiosamente a ordem com que aparecem no livro “A Barca da Morte”, de David H. Lawrence. O primeiro é da VII Secção e o último da V.
Tudo neste livro é maduramente pensado até ao poema final, POST-SCRIPTON, que também é o título do poema com que Manuel Alegre encerra Praça da Canção. Esse é outro magnífico exemplo de intertextualidade, produzido por quem conhece profundamente a obra do poeta da resistência e da liberdade.
Deniz Ramos usa com subtil sabedoria versos ou apenas palavras de Manuel Alegre que enlaça com palavras suas, cujo resultado final é uma pungente elegia iniciado com um verso do livro Chegar Aqui e terminado com um verso, de uma só palavra usada também por Manuel Alegre no mesmo livro. É justo concluir esta proposta de leitura de Memória da Ilha, com a afirmação de que este é um livro singular porque reitera a qualidade do poeta e mostra a sua face de grande leitor de poesia.

