Casal d'Alvaro: As suas origens, a Banda Alvarense e o 16 de outubro
08 de janeiro de 2025
D. Álvaro da Cunha era filho da Rainha Dna Leonor Teles, do seu primeiro casamento com D. João Lourenço da Cunha, casamento anulado por D. Fernando que se “enfeitiçou” por ela. Casal d’Álvaro ganha peso político por Álvaro da Cunha estar ligado ao novo Rei de Portugal, D. João I, Mestre de Avis. Os descendentes de Álvaro continuam ligados a esta terra durante várias gerações.
Em 1519, Casal d’Álvaro adquire um Foral, que lhe granjeia um estatuto considerável. Durante séculos, foi concelho e vila. Casal d’Álvaro tinha a sua importância política, mas não tinha peso eclesiástico, pois não possuía Igreja, nem sequer capela. Tinha uma vida normal daquele tempo, sem a dimensão religiosa. A capela foi construída apenas no século XVII. A padroeira escolhida foi Nª Sª da Conceição, que naquela altura já tinha sido proclamada padroeira de Portugal, por D. João IV, depois da restauração da Independência a 1 de dezembro de 1640.
No século XVII, através dum casamento, as terras dos Cunhas passam para a família Castelo Branco, que as menospreza, e inicia-se uma gradual decadência.
Chegamos ao século XIX, um século cheio de conflitos em Portugal. Em 1826, D. João VI morre e começa a luta entre os irmãos D. Pedro IV, que defendia o liberalismo e a soberania do povo, e D. Miguel, que defendia um reino absolutista. Esta luta origina a Guerra Liberal, que acaba em 1834, com a vitória dos Liberais. As cortes confirmam a regência de D. Pedro IV, mas ele morre um mês depois, e sobe ao trono a sua filha, Dna Maria II. É neste reinado que, em 1835, o liberal Mouzinho da Silveira quer transformar a velha sociedade senhorial na nova sociedade que se exigia neste século, e implementa uma reforma, concluída por Passos Manuel. Muitos concelhos são extintos. Casal d’Álvaro perde o estatuto de concelho, no decreto de 7 de agosto de 1835. O concelho de Águeda nasce nesta altura, é um produto do liberalismo. Perto do século XX, Casal d’Álvaro volta a perder mais um estatuto, deixa de ser vila e passa a aldeia.
DA BANDA DE ÁGUEDA, O ABRAÇO À MÚSICA DOS ALVARENSES
João Tavares Lavoura, meu bisavô, nasceu em 1834, quando a sua terra ainda era concelho e vila e, ao longo da vida, foi vendo a sua querida vila a perder a sua importância.
É por esta altura, nos primeiros anos do século XX, que surge a oportunidade de Casal de Álvaro voltar a ter uma luz de outrora.
João Gonçalves, natural de Bragança, músico reformado da Banda Militar do Porto, onde chegou a contramestre, era maestro da “Música d’Águeda”, no início do Séc. XX. Este maestro comungava dos ideais republicanos, que ganhavam cada vez mais adeptos em todo o território nacional.
A Música d’Águeda tinha como patrono o Conde de Águeda, monárquico do partido Progressista. Eles entram em conflito e, nos primeiros meses do ano de 1905, João Gonçalves sai da Banda d’Águeda. Conhecendo as características dos alvarenses, pergunta a António Pires de Carvalho, um dos alvarenses que tocava na Banda d’Águeda, se queria formar uma “Música” na sua terra. António Pires de Carvalho, também conhecido por António d’Oliveira e por António d’Almeida, disse-lhe que ia falar com o seu pai, Manuel Pires de Carvalho, que tinha uma casa enorme e podia hospedar o maestro sempre que necessário.
A ideia da formação da “Música” foi abraçada pelos alvarenses pois, além da riqueza da instrução musical, levaria o nome de Casal d’Álvaro por essas terras fora, restituindo, de algum modo, o orgulho alvarense. O maestro João Gonçalves teve um papel central, pois possuía instrumentos, o que permitiu à banda iniciar a sua atividade, enquanto ia adquirindo instrumental próprio. A criação da banda foi assegurada por várias pessoas, sobretudo pelas famílias Pires de Carvalho, Tavares Camelo e Fernandes, que estavam interligadas.
NOTÁVEIS AGUEDENSES
PROTETORES DA ALVARENSE
Vários notáveis aguedenses surgem de imediato como protetores da filarmónica alvarense, como o Dr. Eugénio Ribeiro, Manuel Bento Camossa, Francisco Caldeira, Armando Castela, entre outros. No ano anterior, em 1904, estes amigos tinham fundado o jornal Independência d’Águeda, que congregava várias sensibilidades políticas opostas aos progressistas aguedenses. A partir de 1908, o Dr. Eugénio Ribeiro passa a diretor, proprietário e editor, e o jornal assume-se como Semanário Republicano. Através deste jornal, Casal d’Álvaro passa a ter notoriedade, com a divulgação regular dos correspondentes alvarenses. O Dr. Eugénio Ribeiro tinha uma ligação próxima a Casal d’Álvaro, pelas afinidades ideológicas e pelos laços familiares, pois um meio-irmão morava nesta terra, Jeremias de Pinho.
Consta que a primeira lição de música foi dada no dia de S. João e que a reunião onde se decidiu a fundação foi a 25 de agosto. A primeira vez que a filarmónica saiu à rua, aqueles músicos que já saberiam tocar, foi no dia 1 de Dezembro desse ano, a tocar o Hino da Restauração pelas ruas de Casal d’Álvaro. No final de dezembro, a “Música” já tinha 27 elementos. A partir de 1906, é requisitada para tocar nas romarias da região, tendo bastante sucesso.
A banda nasce em 1905, mas apenas foi legalizada em 1910, através da Escritura de “Sociedade Particular Industrial para o Estudo e Execução de Música”, onde descreve os 21 músicos-sócios: 16 moravam em Casal de Álvaro, 2 em Travassô, 1 em Cabanões, 1 em Espinhel e 1 em Oronhe.
A escritura foi elaborada a 7 de abril de 1910, em casa de João Tavares Lavoura, que era pai de três músicos-fundadores, Joaquim Tavares Camelo, António Tavares Camelo e Amândio Tavares Camelo, todos republicanos, tal como a família Pires de Carvalho e boa parte dos alvarenses.
A bandeira da Banda Alvarense é toda vermelha por ser a cor da República. Nesta altura, Joaquim Tavares Camelo, fundador da Banda Alvarense e, mais tarde, da Banda 12 de Abril, estava emigrado no Brasil e, em 1915, envia uma notícia do Rio de Janeiro para o jornal Independência d’Águeda, onde podemos sentir o fervor patriótico dos alvarenses.
A ZANGA QUE DEU EM DEBANDADA
Por limitação financeira, o maestro Gonçalves deixa de dirigir a Música de Casal d’Álvaro em 1910. Ludgero Pinheiro, um dos clarinetistas da Alvarense, natural de Travassô, assume a regência e a banda começa a atrair mais rapazes de Travassô, de Cabanões e Óis da Ribeira.
E chegamos a 16 de Outubro de 1924. Numa festa em Espinhel, origina-se uma zanga e 14 músicos abandonam a Alvarense. A filarmónica passa um mau bocado, pois ficou sem esses músicos, nomeadamente o maestro, e sem os instrumentos, que os tinham levado consigo. Mas a Alvarense dá a volta. Com a sua força de vontade, o seu talento musical e com o apoio dos amigos da região, nomeadamente Manuel Tavares de Carvalho, que estava na América e organizou um peditório, rapidamente se apresentou com todo o seu brilho musical.
As razões da cisão, ninguém poderá afirmar com certeza. Podemos levantar hipóteses, mas serão apenas hipóteses.
Uma coisa é certa, Águeda ficou a ganhar com mais uma banda, que engrandeceu culturalmente o concelho. São filarmónicas com motivações, filosofias e estéticas próprias. Enquanto neto e sobrinho-neto de fundadores das duas bandas, desejo as maiores felicidades para a Orquestra Filarmónica 12 de Abril. Para a Sociedade Musical Alvarense, que continuem a honrar os fundadores desta gloriosa banda, tocando daquela maneira especial, como tão bem sabem.
TIAGO TAVARES ABRANTES

