Futebol
CRÓNICA - A diferença chama-se processo: a Espanha ganhou antes de entrar em campo
04 de agosto de 2026É curioso que seja precisamente a Espanha a dar hoje uma das maiores lições de coletivo. Um país que, durante séculos, foi uma soma de reinos antes de se afirmar como Estado; um país onde catalães, bascos, galegos e andaluzes continuam a cultivar identidades próprias, algumas delas em permanente tensão com a própria ideia de Espanha. No entanto, quando a bola começa a rolar, todos falam a mesma língua futebolística.
Talvez seja essa a maior vitória do futebol espanhol. A identidade não nasce da uniformidade; nasce da existência de um projeto comum. O futebol espanhol conseguiu aquilo que, muitas vezes, a política não consegue: fazer convergir realidades distintas em torno de uma ideia partilhada.
O catalão, o basco, o galego, o andaluz ou o madrileno chegam à seleção com histórias, culturas e sensibilidades diferentes. Mas entram em campo a interpretar a mesma ideia de jogo. Não jogam da mesma forma porque nasceram no mesmo país; jogam da mesma forma porque cresceram dentro do mesmo processo.
É essa continuidade que faz da Espanha uma equipa vencedora - e também uma escola de futebol.
ESPANHA: DIFERENTES IDENTIDADES MAS A MESMA IDEIA DE JOGO
A Espanha voltou a ganhar como quase sempre ganham as grandes equipas. Não foi o acaso, a inspiração de um dia, o jogador capaz de resolver sozinho. Ganhou porque há muitos anos construiu um processo. Um processo que se vai refinando, consolidando e validando através das vitórias internacionais.
A seleção espanhola é um conjunto de excelentes jogadores mas, antes de tudo, é uma ideia de jogo. Uma ideia que começa nas seleções jovens, cresce com os jogadores e chega naturalmente à equipa principal. Os intérpretes mudam; os princípios permanecem. Por isso, a Espanha consegue esconder melhor insuficiências individuais que outras seleções expõem. O coletivo protege o indivíduo. A ocupação dos espaços, a circulação da bola, a pressão organizada e o conhecimento do jogo fazem parecer simples aquilo que é extremamente difícil.
Quando tem bola, a Espanha alia talento à inteligência. Não há talento desperdiçado em vaidades individuais; há talento colocado ao serviço da equipa. Quando não a tem, a sensação é sempre a mesma: existe um espanhol no caminho da bola. Não é acaso; alguém ocupou aquele espaço antes de ele ser necessário. É leitura, sentido coletivo. Depois, quando recupera a posse, surge imediatamente uma linha de apoio, uma desmarcação de rotura ou o passe certo no momento certo.
O JOGADOR É MAIS IMPORTANTE COM BOLA OU SEM BOLA?
Durante muitos anos perguntava aos meus jogadores se eles achavam que eram mais importantes com bola ou sem bola. Depois fazia uma conta muito simples: “Há uma bola e vinte e dois jogadores. Em noventa minutos, quanto tempo toca, em média, a cada um? Quatro minutos? Talvez pouco mais?”
Esta equação significa que cada jogador passa cerca de oitenta e seis minutos sem bola. E o que faz durante esses oitenta e seis minutos? É aí que começa verdadeiramente o futebol!
O espectador acompanha naturalmente a bola. O treinador e os jogadores têm obrigação de olhar para muito mais do que isso. Têm de ver o campo útil. A abertura e o fecho dos espaços. A aproximação e o afastamento entre linhas. O controlo dos ritmos e a aceleração do jogo. A movimentação dos jogadores que ainda não vão tocar na bola, mas que já estão a preparar a jogada seguinte.
O futebol joga-se muito mais longe da bola do que normalmente se imagina. É também por isso que a Espanha transmite uma impressionante segurança mental. Conhece tão bem a sua identidade que raramente perde o foco, raramente entra em ansiedade e quase nunca abdica do protagonismo. Confia no modelo porque cresceu dentro dejle. Não é por acaso que o selecionador conhece profundamente este percurso, tendo acompanhado muitos destes jogadores desde as seleções jovens. Del Bosque já representara essa continuidade. Hoje, ela mantém-se.
A DIFERENTE REALIDADE DO PORTUGAL IMEDIATO
Portugal apresenta uma realidade muito diferente. Escrevíamos antes do Mundial que a seleção portuguesa já começava a perder antes de entrar em campo. Não por falta de talento, mas pelo excesso de expectativas artificiais, alimentadas por campanhas publicitárias e, desta vez, sobretudo por uma direção federativa que preferiu vender entusiasmo em vez de proteger a equipa.
Portugal está a anos-luz da qualidade coletiva da Espanha. Tem talento individual suficiente para competir com qualquer seleção, mas quando vence as grandes equipas fá-lo quase sempre através da entrega e da capacidade de sofrimento. Ganha pela raça, pela solidariedade e pela capacidade competitiva. Não pela superioridade na posse, nem pelo domínio territorial do jogo. Viu-se na Liga das Nações, como antes no Campeonato da Europa.
Chega agora Jorge Jesus. É um treinador com uma identidade forte e dificilmente fará uma gestão de continuidade - não tanto de jogadores, mas de jogo. O modelo passará inevitavelmente a ser o seu, adaptado às características dos jogadores disponíveis. Será uma solução para o imediato, não necessariamente um investimento estrutural no futuro. Poderá resultar, até porque a relação pessoal entre treinador e jogadores continua a ser determinante no futebol de seleções, como aconteceu durante largos períodos com Fernando Santos e Roberto Martínez, antes de a inevitável saturação substituir a confiança inicial.
PODER FEDERATIVO ANTES DO COMPETITIVO
Mas os problemas estruturais permanecerão. A Federação tornou-se uma organização poderosa e financeiramente muito confortável, sustentada em grande parte pelo sucesso comercial da seleção nacional e, em particular, pelo fenómeno Cristiano Ronaldo. A velha imagem de uma federação instalada numa sede modesta da Praça da Alegria pertence ao passado. Hoje os recursos são outros. A questão é saber se essa riqueza tem sido utilizada para construir um processo comparável ao das grandes potências ou se continua demasiado dependente dos ciclos competitivos da seleção principal.
Entretanto, em agosto, regressa o campeonato. Um campeonato que continua praticamente reduzido a três candidatos ao título, um ou outro aspirante ocasional e muitos figurantes. Um campeonato onde frequentemente se valoriza mais o ruído do que o jogo; mais a polémica do que a qualidade; mais a especulação do que a análise. Discutem-se arbitragens, declarações, bastidores e conflitos permanentes, enquanto sobra pouco espaço para falar daquilo que verdadeiramente distingue o futebol: a organização coletiva, as ideias, os comportamentos e a inteligência do jogo.
Talvez seja essa a maior lição que este Mundial nos deixa. O futebol não pertence aos que têm apenas talento. Pertence aos que conseguem organizar esse talento durante muitos anos, respeitando uma ideia, aperfeiçoando um processo e resistindo à tentação de começar sempre do princípio.
É precisamente aí que continua a residir a nossa maior distância. Mesmo sendo Portugal um país bastante mais homogéneo do ponto de vista territorial e político.
AUGUSTO SEMEDO

