Alberto Marques
DESENGARRAFADOS @ ÁGUEDA.PT
29 de julho de 2026Apesar das intermitências climáticas deste verão, a verdade é que o pico da época estival nos leva, inevitavelmente, à habitual “silly season” noticiosa. E como não pretendo ser a excepção a esta prática ancestral, o tema que trago hoje tem o seu quê de “silly”, sem deixar de ser sério…
No dia em que escrevo estas linhas, está a dar os últimos suspiros a edição deste ano da “festa do regime”. Deixo para mais tarde uma reflexão sobre a necessidade de “reinventar” o Agitágueda, e vou focar-me num “irritante” que me apoquenta há alguns anos. A mim e, pelo que percebo, a muita gente: refiro-me à proibição, por motivos de segurança, de garrafas de vidro nas mesas das tasquinhas.
Há decisões que, embora bem-intencionadas, acabam por transmitir uma mensagem contraditória. A regra determina que as tasquinhas podem vender espumante, mas não podem deixar a garrafa na mesa do cliente. O procedimento é simples: a garrafa é retirada da mesa, ficando guardada no balcão, e os responsáveis vão servindo o vinho aos poucos.
O espumante é um dos produtos mais emblemáticos da nossa região. Faz parte da identidade da Bairrada, representa o trabalho de produtores locais e constitui um dos principais cartões de visita da gastronomia e do enoturismo. Em muitos eventos de concelhos vizinhos, é habitual ver garrafas de espumante nas mesas, contribuindo para a sua promoção e para a valorização da experiência de quem visita. Neste contexto, a proibição causa alguma estranheza. O visitante pode comprar espumante, mas a garrafa desaparece imediatamente da sua vista. Perde-se o impacto visual da marca, do rótulo, da origem e da própria experiência de partilhar uma garrafa à mesa, algo que faz parte da cultura vínica portuguesa e bairradina.
Os eventos populares são também uma montra do território. Servem para mostrar o que de melhor se produz localmente e reforçar a identidade da região. Esconder um dos seus produtos mais nobres parece caminhar no sentido contrário desse objetivo.
Naturalmente, a segurança em eventos públicos deve ser uma prioridade. Qualquer medida destinada a proteger visitantes e participantes merece ser ponderada e respeitada. Contudo, importa questionar se esta solução é a mais equilibrada e se os seus efeitos colaterais foram devidamente avaliados. Já me disseram que isto decorre da realização dos concertos no mesmo espaço das refeições (aqui está um dos tais aspectos a “reinventar”), mas faço notar que, mesmo sem garrafas, estão garfos e facas metálicas sobre as mesas. Será uma garrafa uma potencial “arma” mais letal que uma faca? E não poderiam, como aconteceu no passado, permitir as garrafas nas mesas para quem está a jantar, pelo menos até às 22:30, horas dos espectáculos?
Talvez seja tempo de refletir sobre esta regra e avaliar se continua a fazer sentido. Porque promover o espumante da Bairrada passa também por lhe dar visibilidade. E um produto que é motivo de orgulho dificilmente pode cumprir esse papel quando tem de permanecer escondido…
Nota: O autor escreve de acordo com a antiga grafia, que é como quem diz, em português.
No dia em que escrevo estas linhas, está a dar os últimos suspiros a edição deste ano da “festa do regime”. Deixo para mais tarde uma reflexão sobre a necessidade de “reinventar” o Agitágueda, e vou focar-me num “irritante” que me apoquenta há alguns anos. A mim e, pelo que percebo, a muita gente: refiro-me à proibição, por motivos de segurança, de garrafas de vidro nas mesas das tasquinhas.
Há decisões que, embora bem-intencionadas, acabam por transmitir uma mensagem contraditória. A regra determina que as tasquinhas podem vender espumante, mas não podem deixar a garrafa na mesa do cliente. O procedimento é simples: a garrafa é retirada da mesa, ficando guardada no balcão, e os responsáveis vão servindo o vinho aos poucos.
O espumante é um dos produtos mais emblemáticos da nossa região. Faz parte da identidade da Bairrada, representa o trabalho de produtores locais e constitui um dos principais cartões de visita da gastronomia e do enoturismo. Em muitos eventos de concelhos vizinhos, é habitual ver garrafas de espumante nas mesas, contribuindo para a sua promoção e para a valorização da experiência de quem visita. Neste contexto, a proibição causa alguma estranheza. O visitante pode comprar espumante, mas a garrafa desaparece imediatamente da sua vista. Perde-se o impacto visual da marca, do rótulo, da origem e da própria experiência de partilhar uma garrafa à mesa, algo que faz parte da cultura vínica portuguesa e bairradina.
Os eventos populares são também uma montra do território. Servem para mostrar o que de melhor se produz localmente e reforçar a identidade da região. Esconder um dos seus produtos mais nobres parece caminhar no sentido contrário desse objetivo.
Naturalmente, a segurança em eventos públicos deve ser uma prioridade. Qualquer medida destinada a proteger visitantes e participantes merece ser ponderada e respeitada. Contudo, importa questionar se esta solução é a mais equilibrada e se os seus efeitos colaterais foram devidamente avaliados. Já me disseram que isto decorre da realização dos concertos no mesmo espaço das refeições (aqui está um dos tais aspectos a “reinventar”), mas faço notar que, mesmo sem garrafas, estão garfos e facas metálicas sobre as mesas. Será uma garrafa uma potencial “arma” mais letal que uma faca? E não poderiam, como aconteceu no passado, permitir as garrafas nas mesas para quem está a jantar, pelo menos até às 22:30, horas dos espectáculos?
Talvez seja tempo de refletir sobre esta regra e avaliar se continua a fazer sentido. Porque promover o espumante da Bairrada passa também por lhe dar visibilidade. E um produto que é motivo de orgulho dificilmente pode cumprir esse papel quando tem de permanecer escondido…
Nota: O autor escreve de acordo com a antiga grafia, que é como quem diz, em português.

