Alberto Marques
SANTA ENGRÁCIA @ÁGUEDA.PT
16 de setembro de 2026Em 1682, no reinado de D. Pedro II, iniciava-se em Lisboa a construção da Igreja de Santa Engrácia, actual Panteão Nacional. A obra sofreu sucessivos atrasos, interrupções e alterações ao longo dos séculos, arrastando-se de tal maneira que se tornou famosa pela sua duração. A original “obra de Santa Engrácia” só foi concluída em 1966, quase 284 anos depois do início da construção.
Serve este introito histórico para contextualizar a insólita demora na construção não só do novo Mercado Municipal de Águeda, mas também da regeneração da Avenida 25 de Abril, mesmo ali ao lado. Uma, arrasta-se há anos; a outra, há meses. O mais estranho nem é o tempo decorrido, até porque não sou especialista em técnicas de construção, mas o óbvio marasmo de não se verem progressos durante dias ou semanas sucessivos, que causa inevitável estupefação.
Não sou conhecedor profundo da legislação da contratação pública que, segundo alguns autarcas, os obriga a contratar (quase) sempre a proposta mais barata, mesmo que tenham a percepção de que aquela empesa não terá condições para cumprir os prazos acordados. Também não sei como funciona a Lei que permite às autarquias pressionar os construtores e multá-los por cada dia de atraso, mas a sensação que fica é que os autarcas acabam por “ter medo” de castigar os incumpridores, sob pena de as obras ainda demorarem mais. Isto é um círculo vicioso que parece não ter fim… Ainda por cima, temos mesmo ao lado exemplos de extrema eficiência, rapidez e cumprimento de prazos em obras privadas, principalmente nas (muitas) cadeias de supermercados que vão nascendo na cidade. Se estes conseguem, porque é que o Estado não consegue?!
Por cá, após cada novo ponto de situação e mais um “está quase”, os trabalhos de ambas as obras lá vão continuando a conta-gotas, com meia dúzia de trabalhadores (muitas vezes, literalmente menos de meia dúzia), sem progressos visíveis semana após semana, mês após mês. Até quando? Sinceramente, duvido que alguém saiba…
Voltando à mítica Igreja de Santa Engrácia, falta referir a lenda de Simão Pires de Solis, ligada a um episódio real ocorrido em 1630, conhecido como o “Desacato de Santa Engrácia”. O próprio Panteão Nacional confirma que Simão, um cristão-novo, foi acusado depois de terem sido roubadas hóstias consagradas do sacrário da igreja. Foi condenado à morte e executado, mantendo até ao fim a sua inocência. No momento da execução, Simão teria proclamado algo equivalente a “É tão certo eu estar inocente como é certo que as obras de Santa Engrácia nunca mais acabarão”. O Panteão Nacional confirma a existência desta lenda, corroborando a extraordinária coincidência de a obra demorar quase três séculos…
Quanto às obras na baixa de Águeda, é caso para dizer, como os nossos vizinhos espanhóis, “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”. Será que Simão de Solis veio visitar a festa do regime e, encantado com os “sombreros coloridos”, resolveu ficar por cá e andar por aí?...
Nota: O autor escreve de acordo com a antiga grafia, que é como quem diz, em português.
Serve este introito histórico para contextualizar a insólita demora na construção não só do novo Mercado Municipal de Águeda, mas também da regeneração da Avenida 25 de Abril, mesmo ali ao lado. Uma, arrasta-se há anos; a outra, há meses. O mais estranho nem é o tempo decorrido, até porque não sou especialista em técnicas de construção, mas o óbvio marasmo de não se verem progressos durante dias ou semanas sucessivos, que causa inevitável estupefação.
Não sou conhecedor profundo da legislação da contratação pública que, segundo alguns autarcas, os obriga a contratar (quase) sempre a proposta mais barata, mesmo que tenham a percepção de que aquela empesa não terá condições para cumprir os prazos acordados. Também não sei como funciona a Lei que permite às autarquias pressionar os construtores e multá-los por cada dia de atraso, mas a sensação que fica é que os autarcas acabam por “ter medo” de castigar os incumpridores, sob pena de as obras ainda demorarem mais. Isto é um círculo vicioso que parece não ter fim… Ainda por cima, temos mesmo ao lado exemplos de extrema eficiência, rapidez e cumprimento de prazos em obras privadas, principalmente nas (muitas) cadeias de supermercados que vão nascendo na cidade. Se estes conseguem, porque é que o Estado não consegue?!
Por cá, após cada novo ponto de situação e mais um “está quase”, os trabalhos de ambas as obras lá vão continuando a conta-gotas, com meia dúzia de trabalhadores (muitas vezes, literalmente menos de meia dúzia), sem progressos visíveis semana após semana, mês após mês. Até quando? Sinceramente, duvido que alguém saiba…
Voltando à mítica Igreja de Santa Engrácia, falta referir a lenda de Simão Pires de Solis, ligada a um episódio real ocorrido em 1630, conhecido como o “Desacato de Santa Engrácia”. O próprio Panteão Nacional confirma que Simão, um cristão-novo, foi acusado depois de terem sido roubadas hóstias consagradas do sacrário da igreja. Foi condenado à morte e executado, mantendo até ao fim a sua inocência. No momento da execução, Simão teria proclamado algo equivalente a “É tão certo eu estar inocente como é certo que as obras de Santa Engrácia nunca mais acabarão”. O Panteão Nacional confirma a existência desta lenda, corroborando a extraordinária coincidência de a obra demorar quase três séculos…
Quanto às obras na baixa de Águeda, é caso para dizer, como os nossos vizinhos espanhóis, “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”. Será que Simão de Solis veio visitar a festa do regime e, encantado com os “sombreros coloridos”, resolveu ficar por cá e andar por aí?...
Nota: O autor escreve de acordo com a antiga grafia, que é como quem diz, em português.

