Augusto Semedo .. editorial
NUREMBERGA E O AVISO QUE ESTÁ AÍ
16 de janeiro de 2026Voltei recentemente às salas de cinema — um velho hábito, pré-covid, recuperado — para ver Nuremberga, cidade onde já tive oportunidade de estar para observar o que nazismo deixou. Não é um filme confortável. Não o deve ser. Porque não fala apenas do passado; fala de um perigo que nunca desapareceu - e que está, bem presente, no Mundo. E entre nós, mais do que supomos.
Os Julgamentos de Nuremberga, realizados entre 1945 e 1946, representaram uma rutura histórica. Pela primeira vez, dirigentes de um Estado foram julgados; não por terem perdido uma guerra, mas por crimes contra a humanidade. Não se tratava apenas do Holocausto mas de algo ainda mais profundo: a recusa da ideia de que um governo pode transformar o mal em lei.
Tudo o que os nazis fizeram era, dentro da Alemanha, legal. As leis raciais foram aprovadas. As deportações obedeciam a regulamentos. Os campos foram criados por decretos do Estado. Nuremberga estabeleceu um princípio revolucionário: há crimes tão graves que nenhuma lei nacional os pode legitimar. É daí que nasce o direito internacional moderno.
No filme, há uma cena perturbadora. O psicólogo que acompanha os dirigentes nazis presos — inspirado no verdadeiro Gustave Mark Gilbert (1911–1977) — é entrevistado por uma rádio americana. Perguntam-lhe se o que aconteceu na Alemanha poderia ocorrer noutro país. Ele responde que sim. Perguntam: até nos Estados Unidos? Ele volta a dizer que sim. O estúdio fica em choque. O público não esperava aquela resposta.
Gilbert não via monstros. Via homens comuns: burocratas, juristas, militares, técnicos. Pessoas que trocaram a consciência pela obediência, o pensamento crítico pelo conforto da pertença. O nazismo não nasceu apenas do ódio. Nasceu do medo, do ressentimento, da humilhação, da propaganda e da necessidade humana de acreditar numa narrativa simples para explicar um mundo complexo.
Formado em psicologia na Universidade de Columbia em 1939, Gilbert, por falar alemão, foi destacado pelo Exército dos EUA para trabalhar como psicólogo e tradutor durante a Segunda Guerra. Em Nuremberga, observou e entrevistou os principais líderes nazis, administrando testes psicológicos e de inteligência. Ao contrário de alguns colegas, não os via como loucos clínicos, mas como indivíduos comuns que, por escolhas pessoais e fatores sociais, aderiram a uma ideologia e aceitaram crimes atrozes sem remorso. Publicou essas observações em Nuremberg Diary (1947) e The Psychology of Dictatorship (1950), tentando compreender a mente de Hitler e dos líderes do regime.
Nada disso pertence apenas à Alemanha dos anos 30.
Hoje não vivemos em campos de concentração. Mas vivemos num tempo em que a verdade é atacada, a imprensa é desacreditada, minorias são transformadas em ameaças e líderes apresentam-se como salvadores únicos.
A História ensina que o totalitarismo não começa com violência extrema. Começa quando as pessoas deixam de pensar por si próprias.
As sociedades não colapsam porque são más. Colapsam porque são convencidas de que “os outros” são o problema — e que, em nome da segurança, tudo pode ser permitido.
Os Julgamentos de Nuremberga foram um aviso ao futuro mais do que um acerto de contas com o passado. Quando se perguntou se aquilo poderia acontecer nos Estados Unidos, a resposta não foi um insulto — foi um aviso! Nenhuma democracia é imune à erosão da verdade, ao culto da força ou à sedução do ódio.
O que protege uma sociedade não é a sua bandeira, nem a sua riqueza, nem a sua tecnologia. É a sua capacidade de pensar, de discordar e de lembrar.
E é precisamente isso que hoje está em risco.
Os Julgamentos de Nuremberga, realizados entre 1945 e 1946, representaram uma rutura histórica. Pela primeira vez, dirigentes de um Estado foram julgados; não por terem perdido uma guerra, mas por crimes contra a humanidade. Não se tratava apenas do Holocausto mas de algo ainda mais profundo: a recusa da ideia de que um governo pode transformar o mal em lei.
Tudo o que os nazis fizeram era, dentro da Alemanha, legal. As leis raciais foram aprovadas. As deportações obedeciam a regulamentos. Os campos foram criados por decretos do Estado. Nuremberga estabeleceu um princípio revolucionário: há crimes tão graves que nenhuma lei nacional os pode legitimar. É daí que nasce o direito internacional moderno.
No filme, há uma cena perturbadora. O psicólogo que acompanha os dirigentes nazis presos — inspirado no verdadeiro Gustave Mark Gilbert (1911–1977) — é entrevistado por uma rádio americana. Perguntam-lhe se o que aconteceu na Alemanha poderia ocorrer noutro país. Ele responde que sim. Perguntam: até nos Estados Unidos? Ele volta a dizer que sim. O estúdio fica em choque. O público não esperava aquela resposta.
Gilbert não via monstros. Via homens comuns: burocratas, juristas, militares, técnicos. Pessoas que trocaram a consciência pela obediência, o pensamento crítico pelo conforto da pertença. O nazismo não nasceu apenas do ódio. Nasceu do medo, do ressentimento, da humilhação, da propaganda e da necessidade humana de acreditar numa narrativa simples para explicar um mundo complexo.
Formado em psicologia na Universidade de Columbia em 1939, Gilbert, por falar alemão, foi destacado pelo Exército dos EUA para trabalhar como psicólogo e tradutor durante a Segunda Guerra. Em Nuremberga, observou e entrevistou os principais líderes nazis, administrando testes psicológicos e de inteligência. Ao contrário de alguns colegas, não os via como loucos clínicos, mas como indivíduos comuns que, por escolhas pessoais e fatores sociais, aderiram a uma ideologia e aceitaram crimes atrozes sem remorso. Publicou essas observações em Nuremberg Diary (1947) e The Psychology of Dictatorship (1950), tentando compreender a mente de Hitler e dos líderes do regime.
Nada disso pertence apenas à Alemanha dos anos 30.
Hoje não vivemos em campos de concentração. Mas vivemos num tempo em que a verdade é atacada, a imprensa é desacreditada, minorias são transformadas em ameaças e líderes apresentam-se como salvadores únicos.
A História ensina que o totalitarismo não começa com violência extrema. Começa quando as pessoas deixam de pensar por si próprias.
As sociedades não colapsam porque são más. Colapsam porque são convencidas de que “os outros” são o problema — e que, em nome da segurança, tudo pode ser permitido.
Os Julgamentos de Nuremberga foram um aviso ao futuro mais do que um acerto de contas com o passado. Quando se perguntou se aquilo poderia acontecer nos Estados Unidos, a resposta não foi um insulto — foi um aviso! Nenhuma democracia é imune à erosão da verdade, ao culto da força ou à sedução do ódio.
O que protege uma sociedade não é a sua bandeira, nem a sua riqueza, nem a sua tecnologia. É a sua capacidade de pensar, de discordar e de lembrar.
E é precisamente isso que hoje está em risco.

