Augusto Semedo .. editorial
O LADO CERTO DA HISTÓRIA
30 de abril de 2026Há uma expressão que se tornou comum no discurso político: “estar do lado certo da História”. Invoca-se como selo de legitimidade, como argumento final — como se a História fosse um tribunal imediato e não um processo longo, complexo e, tantas vezes, imprevisível. Mas o que significa, afinal, estar do lado certo da História?
Num tempo em que democracias consolidadas enfrentam tensões internas, polarização crescente e lideranças que testam os limites das instituições — dos Estados Unidos de Donald Trump a vários países europeus — a expressão ganhou um novo peso. Passou a ser usada como referência ética e, fundamentalmente, como instrumento de combate político, muitas vezes para deslegitimar o outro lado. E é aí que reside o risco.
Em democracia (que ainda é o sistema que temos), essa ideia não pode ser confundida com unanimidade, nem com obediência, nem com ausência de conflito. Estar alinhado não é estar calado. E gostar da terra — do local ao global — não é concordar sempre, em todas as matérias ou em todos os momentos. Pelo contrário: a democracia vive da diferença, da crítica, da capacidade de ouvir o outro lado — mesmo quando esse lado incomoda, atrasa ou questiona. Talvez, sobretudo, quando questiona.
Há um equívoco perigoso que se instala quando o exercício do poder se fecha sobre si próprio. Quando se cria uma redoma onde apenas entram os que aplaudem, os consensos artificiais e os inevitáveis “lambe-botas” que confundem lealdade com conveniência. Esse fenómeno não é exclusivo de grandes capitais ou de palcos internacionais — também se reconhece à escala local, onde a proximidade deveria, em teoria, favorecer maior escrutínio e não menor exigência.
É servil quem age com subserviência, bajulação ou obediência excessiva, como se de um servo se tratasse. E esses são, tantas vezes, os primeiros a mudar de lado quando o vento político muda, deixando para trás relações pessoais, projetos e até comunidades. A História — essa que não se escreve em tempo real — está cheia desses exemplos, tanto lá fora como cá dentro.
Governar, em democracia, não é escolher entre quem apoia e quem critica. É integrar, ponderar, equilibrar. Não é impor convicções pessoais como se fossem verdades absolutas, nem condicionar a vida coletiva a interesses próprios ou a visões estreitas. É reconhecer que o mandato conferido pela população não legitima a infalibilidade — exige responsabilidade acrescida, sobretudo quando o contexto global mostra como facilmente se resvala para práticas menos abertas, menos dialogantes, menos democráticas.
Estar do lado certo da História não é, por isso, exercer o poder como se não houvesse alternativa. Não é desvalorizar contributos só porque vêm de vozes discordantes. Não é apagar o trabalho feito anteriormente, nem ignorar a identidade construída ao longo do tempo, apenas porque não se ajusta à narrativa do presente.
Pelo contrário, talvez o lado certo da História seja aquele que soma em vez de dividir. Que reconhece valor mesmo na crítica — porque nem toda é destrutiva. Que aproveita sinergias, mesmo quando elas nascem fora do círculo de conforto do poder. Que respeita o passado sem ficar prisioneiro dele, mas também sem o reescrever por conveniência.
A diferença entre democracia e autocracia não está apenas no voto. Está sobretudo na forma como se exerce o poder depois dele. Na autocracia, decide-se sozinho e exige-se concordância. Na democracia, governa-se com e para todos — inclusive com e para os que discordam. Num tempo em que essa fronteira se torna, em alguns contextos, mais difusa, esta distinção deixa de ser teórica para passar a ser essencial.
É que, no fim, a História não se escreve com declarações de intenção nem com slogans bem construídos. A História escreve-se com evidências. Com a forma como se trata quem pensa diferente. Com a capacidade — ou incapacidade — de ouvir, integrar e respeitar. Talvez estar do lado certo da História seja, simplesmente, nunca esquecer isso.
P.S. - Em Abril (52 anos sobre o 25), esta ideia ganha ainda mais sentido: como memória e responsabilidade, acima de discursos desfasados da prática. Porque discordar não é estar contra. Tal como na infância se deve ensinar que não gostar da mesma brincadeira nunca impede ninguém de ser amigo, também na vida adulta a diferença não afasta — o respeito aproxima. É assim que se caminha juntos, mesmo quando se escolhem caminhos diferentes.
Num tempo em que democracias consolidadas enfrentam tensões internas, polarização crescente e lideranças que testam os limites das instituições — dos Estados Unidos de Donald Trump a vários países europeus — a expressão ganhou um novo peso. Passou a ser usada como referência ética e, fundamentalmente, como instrumento de combate político, muitas vezes para deslegitimar o outro lado. E é aí que reside o risco.
Em democracia (que ainda é o sistema que temos), essa ideia não pode ser confundida com unanimidade, nem com obediência, nem com ausência de conflito. Estar alinhado não é estar calado. E gostar da terra — do local ao global — não é concordar sempre, em todas as matérias ou em todos os momentos. Pelo contrário: a democracia vive da diferença, da crítica, da capacidade de ouvir o outro lado — mesmo quando esse lado incomoda, atrasa ou questiona. Talvez, sobretudo, quando questiona.
Há um equívoco perigoso que se instala quando o exercício do poder se fecha sobre si próprio. Quando se cria uma redoma onde apenas entram os que aplaudem, os consensos artificiais e os inevitáveis “lambe-botas” que confundem lealdade com conveniência. Esse fenómeno não é exclusivo de grandes capitais ou de palcos internacionais — também se reconhece à escala local, onde a proximidade deveria, em teoria, favorecer maior escrutínio e não menor exigência.
É servil quem age com subserviência, bajulação ou obediência excessiva, como se de um servo se tratasse. E esses são, tantas vezes, os primeiros a mudar de lado quando o vento político muda, deixando para trás relações pessoais, projetos e até comunidades. A História — essa que não se escreve em tempo real — está cheia desses exemplos, tanto lá fora como cá dentro.
Governar, em democracia, não é escolher entre quem apoia e quem critica. É integrar, ponderar, equilibrar. Não é impor convicções pessoais como se fossem verdades absolutas, nem condicionar a vida coletiva a interesses próprios ou a visões estreitas. É reconhecer que o mandato conferido pela população não legitima a infalibilidade — exige responsabilidade acrescida, sobretudo quando o contexto global mostra como facilmente se resvala para práticas menos abertas, menos dialogantes, menos democráticas.
Estar do lado certo da História não é, por isso, exercer o poder como se não houvesse alternativa. Não é desvalorizar contributos só porque vêm de vozes discordantes. Não é apagar o trabalho feito anteriormente, nem ignorar a identidade construída ao longo do tempo, apenas porque não se ajusta à narrativa do presente.
Pelo contrário, talvez o lado certo da História seja aquele que soma em vez de dividir. Que reconhece valor mesmo na crítica — porque nem toda é destrutiva. Que aproveita sinergias, mesmo quando elas nascem fora do círculo de conforto do poder. Que respeita o passado sem ficar prisioneiro dele, mas também sem o reescrever por conveniência.
A diferença entre democracia e autocracia não está apenas no voto. Está sobretudo na forma como se exerce o poder depois dele. Na autocracia, decide-se sozinho e exige-se concordância. Na democracia, governa-se com e para todos — inclusive com e para os que discordam. Num tempo em que essa fronteira se torna, em alguns contextos, mais difusa, esta distinção deixa de ser teórica para passar a ser essencial.
É que, no fim, a História não se escreve com declarações de intenção nem com slogans bem construídos. A História escreve-se com evidências. Com a forma como se trata quem pensa diferente. Com a capacidade — ou incapacidade — de ouvir, integrar e respeitar. Talvez estar do lado certo da História seja, simplesmente, nunca esquecer isso.
P.S. - Em Abril (52 anos sobre o 25), esta ideia ganha ainda mais sentido: como memória e responsabilidade, acima de discursos desfasados da prática. Porque discordar não é estar contra. Tal como na infância se deve ensinar que não gostar da mesma brincadeira nunca impede ninguém de ser amigo, também na vida adulta a diferença não afasta — o respeito aproxima. É assim que se caminha juntos, mesmo quando se escolhem caminhos diferentes.

