Augusto Semedo .. editorial
A POLÍTICA DAS TRINCHEIRAS E A LIÇÃO DOS ANTIGOS
30 de setembro de 2026Há uma sabedoria profunda naquilo a que podemos chamar a "geração a preto e branco". Falo daqueles que se formaram num país com menos recursos, menos opções e carências hoje difíceis de imaginar, mas que, com pouco, construíram quase tudo o que estruturou o nosso presente.
Essa geração deixou-nos lições que o imediatismo dos nossos dias teima em esquecer: a de que os obstáculos se resolvem com inteligência prática, a de que a ironia elegante desarma a soberba e, acima de tudo, a de que nem todas as divergências precisam de produzir inimigos.
No livro O Herói Esquecido, de José Marques Vidal, essa capacidade de conviver com a diferença ganha vida na amizade entre João do Préstimo, o pragmático, e o Dr. Daniel, o sonhador. Em tempos profundamente divididos, as suas diferenças políticas não destruíram o que os ligava. Sabiam distinguir a discórdia ideológica do reconhecimento mútuo do outro. Esta é, porventura, a lição mais urgente para a nossa atual conjuntura: uma amizade verdadeira, tal como uma sociedade democrática saudável, não exige que pensemos todos da mesma maneira. Exige, sim, um sentido de coletivo onde a vida de cada um depende, em alguma medida, da vida dos outros.
No entanto, quando olhamos para o xadrez político contemporâneo — dos grandes palcos dos poderes globais às dinâmicas mais próximas dos poderes locais —, a realidade que encontramos é o oposto dessa harmonia. Assistimos à criação sistemática de trincheiras. Contar com amigos, no seu âmago mais puro, é sentir que somos escutados e que as nossas preocupações são acolhidas. Transportada para a esfera pública, esta premissa dita que governar como legítimo representante de um povo é, precisamente, escutar o povo, governar para ele e sentir as suas angústias. Mas implica também ter valores sólidos que permitam respeitar quem pensa o contrário.
Hoje, os poderes refletem cada vez menos esta "amizade atual". A governação cedeu à ditadura dos algoritmos e do curto prazo. Urge lembrar que fazer opções de governação não se mede pelo número de votos que elas rendem no imediato, mas por aquilo que deixam para o futuro. Para governar com os olhos no amanhã, são necessários valores assentes na integridade; é preciso ter a coragem de separar o trigo do joio.
Onde esta ausência de valores se torna mais perigosa é nas alianças de circunstância. A expressão popular "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és" aplica-se com precisão cirúrgica àqueles que, para se enganarem momentaneamente no desejo narcísico de parecerem maiores do que são, aceitam apoiar o degredo moral. Ao fazê-lo, alinham com o populismo e a degradação do debate público, demitindo-se da justiça e do respeito pelas funções que competem aos vários setores da sociedade. Esquecem-se de que a sobrevivência da democracia depende do equilíbrio e da separação de poderes: entre política e justiça, como entre propaganda e informação.
A cor da liberdade e da democracia, que chegou para colorir o mundo a preto e branco, corre o risco de desbotar se a transformarmos num direito natural e sem deveres. Se o conformismo for mais confortável do que o pensamento crítico, deixaremos de questionar. Uma sociedade que deixa de pensar fica inteiramente disponível para seguir qualquer caminho. Precisamos de resgatar essa capacidade antiga de discordar sem levantar a voz, de governar com o ouvido no povo e de entender que as maiorias numéricas não se sobrepõem à ética do bem comum.
Olhar para trás não é um exercício de nostalgia melancólica, mas sim um ato de sobrevivência democrática. Se a geração que enfrentou o mundo a preto e branco nos provou que a integridade e o sentido de comunidade constroem o futuro, a nossa responsabilidade atual é não deixar que a abundância de cores nos cegue. O verdadeiro poder — seja ele global ou local — mede-se pela capacidade de escutar sem silenciar, de divergir sem destruir e de governar sem vender a alma ao imediatismo dos votos. Salvar a democracia exige, afinal, a coragem de regressar aos valores fundamentais da amizade e do respeito cívico, garantindo que o amanhã não seja herdado por heróis esquecidos, mas por uma sociedade que nunca deixou de saber pensar.
Essa geração deixou-nos lições que o imediatismo dos nossos dias teima em esquecer: a de que os obstáculos se resolvem com inteligência prática, a de que a ironia elegante desarma a soberba e, acima de tudo, a de que nem todas as divergências precisam de produzir inimigos.
No livro O Herói Esquecido, de José Marques Vidal, essa capacidade de conviver com a diferença ganha vida na amizade entre João do Préstimo, o pragmático, e o Dr. Daniel, o sonhador. Em tempos profundamente divididos, as suas diferenças políticas não destruíram o que os ligava. Sabiam distinguir a discórdia ideológica do reconhecimento mútuo do outro. Esta é, porventura, a lição mais urgente para a nossa atual conjuntura: uma amizade verdadeira, tal como uma sociedade democrática saudável, não exige que pensemos todos da mesma maneira. Exige, sim, um sentido de coletivo onde a vida de cada um depende, em alguma medida, da vida dos outros.
No entanto, quando olhamos para o xadrez político contemporâneo — dos grandes palcos dos poderes globais às dinâmicas mais próximas dos poderes locais —, a realidade que encontramos é o oposto dessa harmonia. Assistimos à criação sistemática de trincheiras. Contar com amigos, no seu âmago mais puro, é sentir que somos escutados e que as nossas preocupações são acolhidas. Transportada para a esfera pública, esta premissa dita que governar como legítimo representante de um povo é, precisamente, escutar o povo, governar para ele e sentir as suas angústias. Mas implica também ter valores sólidos que permitam respeitar quem pensa o contrário.
Hoje, os poderes refletem cada vez menos esta "amizade atual". A governação cedeu à ditadura dos algoritmos e do curto prazo. Urge lembrar que fazer opções de governação não se mede pelo número de votos que elas rendem no imediato, mas por aquilo que deixam para o futuro. Para governar com os olhos no amanhã, são necessários valores assentes na integridade; é preciso ter a coragem de separar o trigo do joio.
Onde esta ausência de valores se torna mais perigosa é nas alianças de circunstância. A expressão popular "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és" aplica-se com precisão cirúrgica àqueles que, para se enganarem momentaneamente no desejo narcísico de parecerem maiores do que são, aceitam apoiar o degredo moral. Ao fazê-lo, alinham com o populismo e a degradação do debate público, demitindo-se da justiça e do respeito pelas funções que competem aos vários setores da sociedade. Esquecem-se de que a sobrevivência da democracia depende do equilíbrio e da separação de poderes: entre política e justiça, como entre propaganda e informação.
A cor da liberdade e da democracia, que chegou para colorir o mundo a preto e branco, corre o risco de desbotar se a transformarmos num direito natural e sem deveres. Se o conformismo for mais confortável do que o pensamento crítico, deixaremos de questionar. Uma sociedade que deixa de pensar fica inteiramente disponível para seguir qualquer caminho. Precisamos de resgatar essa capacidade antiga de discordar sem levantar a voz, de governar com o ouvido no povo e de entender que as maiorias numéricas não se sobrepõem à ética do bem comum.
Olhar para trás não é um exercício de nostalgia melancólica, mas sim um ato de sobrevivência democrática. Se a geração que enfrentou o mundo a preto e branco nos provou que a integridade e o sentido de comunidade constroem o futuro, a nossa responsabilidade atual é não deixar que a abundância de cores nos cegue. O verdadeiro poder — seja ele global ou local — mede-se pela capacidade de escutar sem silenciar, de divergir sem destruir e de governar sem vender a alma ao imediatismo dos votos. Salvar a democracia exige, afinal, a coragem de regressar aos valores fundamentais da amizade e do respeito cívico, garantindo que o amanhã não seja herdado por heróis esquecidos, mas por uma sociedade que nunca deixou de saber pensar.

