Fernando Almeida
EXCESSOS
21 de outubro de 2026Os excessos de opinião e de escrutínio – sim, excessos – estão, no relaxe consentido dos princípios e dos valores, a minar a sociedade deste milénio e a contribuir inexoravelmente para a degradação da democracia e da coesão social.
Dito assim, até parece que se defende o regresso a um tempo acinzentado, em que alguém se arrogava no “favor” de pensar pelos outros, mesmo daqueles que, calada ou abertamente, isso dispensassem. Todavia, obscurantista é igualmente este tempo, em que se insinua, sem pudor, a “ideologia do quanto pior, melhor” – que, por ser digestiva e sedutora, se propaga à velocidade da net.
A par da liberdade de expressão, os meios que existem hoje para veicular opiniões, criaram a oportunidade para o enriquecimento das ideias, quando usados com senso, o que demasiadas vezes não acontece, mas, por outro lado, proporcionaram palco fácil à maledicência, à arrogância e à exaltação do ego – à estupidez como nova regra.
É comum entre internautas querer fazer passar a ideia, porventura óbvia, da alegada validade de determinada verdade irrefutável, quando se omitem pressupostos ou se enuncia apenas a premissa que dá jeito do conjunto das variáveis que, com mais rigor, devem concorrer para a conclusão mais ponderada. Gente que, sem freio de sensatez, “pensa” para o lado para que está virado e que, falando para os apaniguados, consegue passar as contaminadas (meias) verdades que dissemina com petulância.
Até a política está povoada disso. O discurso, capturado pelo mediatismo, está cheio de certezas, não havendo lugar a dúvidas, estas realmente bem mais enriquecedoras da visão construtora das ideias não prezas ao jugo do imediatismo.
Nada mais produtivo do que o confronto de opiniões, mas é preciso ter a humildade – semente escassa – de aceitar as dos outros e de ser capaz de admitir a dúvida na “certeza” própria.
Curioso como a riqueza intelectual se constrói com a partilha de ideias e, ao invés, o fermento da estupidez com o acantonamento nas certezas inabaláveis de cada um. Não são apenas as redes sociais e o facilitismo no acesso à propalação da informação que estão a contribuir para esta causa. Muitos meios de comunicação mais institucionais, tv’s incluídas, também estão a “dar para esse peditório”, cometendo os mesmos erros, escamoteando premissas e veiculando as mesmas conclusões até à exaustão: a mentira (ou a meia verdade) muitas vezes dita e não contestada acaba por ganhar estatuto de verdade.
Até o jornalismo de investigação vai muito para além do seu papel de levantamento de casos censuráveis, para, na chafurdice do lamaçal e vítima do próprio veneno, ter de passar a ser juiz em causa própria para sacudir os miasmas da imundice.
Há muita gente que usa as redes sociais e, em tom de brincadeira, inocentemente ou não, passa mensagens que quem lê aceita – por falta de ponderação –, como coisa séria. Para já não falar da IA que, mesmo para quem não tem hábitos de leitura, consegue vestir de verdade coisas absolutamente absurdas, explorando a falta de espírito critico (os dois dedos de testa) dos usuários de informação.
A mente está povoada de arquétipos e preconceitos, perigosamente aberta a tudo aquilo que está de acordo com os anseios próprios, tendendo a rejeitar as contrariedades. A cultura deve ter o papel de detonar esses preconceitos e construir espaço de instalação, residente, da dúvida metódica, única maneira de erradicar o fermento da pós-verdade, essa pecha que teima em submeter a ciência, com o aparecimento do negacionismo – já não dúvida, mas certeza de pernas para o ar.
Já agora, mais uma vez e até aos confins das possibilidades, saliente-se, em antídoto para tudo isto, o papel da imprensa local, na militância que faz em prol do debate e da informação de proximidade. Com rosto e exposta, como nenhuma outra, ao escrutínio de quem conhece a realidade do ambiente noticiado ou comentado, não pode embarcar em tentações fantasiosas ou adulterar grosseiramente a realidade em causa. Antes, ao rejeitar “verdades” alternativas, mais sedutoras e rentáveis, está a contribuir para vertebrar a informação, conferindo-lhe o estatuto adicional de formação.
Só por esse exercício de rigor, bem merecia, em particular do erário, incentivo bem mais robusto para combater a desinformação crónica que, à rédea solta, se agiganta na sociedade atual, anestesiada, entorpecida, subjugada.
Dito assim, até parece que se defende o regresso a um tempo acinzentado, em que alguém se arrogava no “favor” de pensar pelos outros, mesmo daqueles que, calada ou abertamente, isso dispensassem. Todavia, obscurantista é igualmente este tempo, em que se insinua, sem pudor, a “ideologia do quanto pior, melhor” – que, por ser digestiva e sedutora, se propaga à velocidade da net.
A par da liberdade de expressão, os meios que existem hoje para veicular opiniões, criaram a oportunidade para o enriquecimento das ideias, quando usados com senso, o que demasiadas vezes não acontece, mas, por outro lado, proporcionaram palco fácil à maledicência, à arrogância e à exaltação do ego – à estupidez como nova regra.
É comum entre internautas querer fazer passar a ideia, porventura óbvia, da alegada validade de determinada verdade irrefutável, quando se omitem pressupostos ou se enuncia apenas a premissa que dá jeito do conjunto das variáveis que, com mais rigor, devem concorrer para a conclusão mais ponderada. Gente que, sem freio de sensatez, “pensa” para o lado para que está virado e que, falando para os apaniguados, consegue passar as contaminadas (meias) verdades que dissemina com petulância.
Até a política está povoada disso. O discurso, capturado pelo mediatismo, está cheio de certezas, não havendo lugar a dúvidas, estas realmente bem mais enriquecedoras da visão construtora das ideias não prezas ao jugo do imediatismo.
Nada mais produtivo do que o confronto de opiniões, mas é preciso ter a humildade – semente escassa – de aceitar as dos outros e de ser capaz de admitir a dúvida na “certeza” própria.
Curioso como a riqueza intelectual se constrói com a partilha de ideias e, ao invés, o fermento da estupidez com o acantonamento nas certezas inabaláveis de cada um. Não são apenas as redes sociais e o facilitismo no acesso à propalação da informação que estão a contribuir para esta causa. Muitos meios de comunicação mais institucionais, tv’s incluídas, também estão a “dar para esse peditório”, cometendo os mesmos erros, escamoteando premissas e veiculando as mesmas conclusões até à exaustão: a mentira (ou a meia verdade) muitas vezes dita e não contestada acaba por ganhar estatuto de verdade.
Até o jornalismo de investigação vai muito para além do seu papel de levantamento de casos censuráveis, para, na chafurdice do lamaçal e vítima do próprio veneno, ter de passar a ser juiz em causa própria para sacudir os miasmas da imundice.
Há muita gente que usa as redes sociais e, em tom de brincadeira, inocentemente ou não, passa mensagens que quem lê aceita – por falta de ponderação –, como coisa séria. Para já não falar da IA que, mesmo para quem não tem hábitos de leitura, consegue vestir de verdade coisas absolutamente absurdas, explorando a falta de espírito critico (os dois dedos de testa) dos usuários de informação.
A mente está povoada de arquétipos e preconceitos, perigosamente aberta a tudo aquilo que está de acordo com os anseios próprios, tendendo a rejeitar as contrariedades. A cultura deve ter o papel de detonar esses preconceitos e construir espaço de instalação, residente, da dúvida metódica, única maneira de erradicar o fermento da pós-verdade, essa pecha que teima em submeter a ciência, com o aparecimento do negacionismo – já não dúvida, mas certeza de pernas para o ar.
Já agora, mais uma vez e até aos confins das possibilidades, saliente-se, em antídoto para tudo isto, o papel da imprensa local, na militância que faz em prol do debate e da informação de proximidade. Com rosto e exposta, como nenhuma outra, ao escrutínio de quem conhece a realidade do ambiente noticiado ou comentado, não pode embarcar em tentações fantasiosas ou adulterar grosseiramente a realidade em causa. Antes, ao rejeitar “verdades” alternativas, mais sedutoras e rentáveis, está a contribuir para vertebrar a informação, conferindo-lhe o estatuto adicional de formação.
Só por esse exercício de rigor, bem merecia, em particular do erário, incentivo bem mais robusto para combater a desinformação crónica que, à rédea solta, se agiganta na sociedade atual, anestesiada, entorpecida, subjugada.

