Luis Gonzaga Grego
O MEU PAI
15 de abril de 2026Nos verdes anos raramente ia às aulas. Acompanhava o meu pai nas longas viagens por Angola.
Partíamos do Luso (Moxico) em direcção ao infinito, Henrique de Carvalho, Malanje, Novo Redondo, Silva Porto, Huambo, Benguela, Lobito, Sá da Bandeira, Serpa Pinto.
Por aqueles dias o Luíz Gonzaga Grego Júnior, assim registado por ter herdado o nome do meu avô, era o relações públicas da UNITA.
Juntava o dinheiro dos empresários e comerciantes para as colunas militares poderem circular, sem serem atacadas nas zonas sob influência do movimento do Galo Negro.
Fomos à Jamba muitas vezes, sempre de noite, não havia lixo no chão de terra, as luzes eram amarelas, mais baixas do que o arvoredo.
Não era uma cidadela mas também não era um bairro. Nunca vi as mulheres e as crianças que lá viviam.
Soube da guerra civil porque fomos para a escola apressadamente fazer o exame da 4ª classe. Todos queriam regressar.
Os militares portugueses tomaram posição favorável ao MPLA, não participaram no conflito mas facilitaram o equipamento e a logística.
O MPLA e UNITA combatiam rua a rua, casa a casa, ficando os mortos, e os feridos deixados à sua sorte, pelas ruas.
Lá pelo final da tarde, o meu pai e eu miúdo, com nove anitos, recolhíamos os feridos e leváva-mo-los para o Hospital. Depois, os mortos.
A guerra parava, mesmo não jogando o Benfica. A âmbulância improvisada era um Mazda 616, AAF-18-29, cor de laranja, era a última esperança para muitos.
A UNITA, entretanto, tinha cercado e capturado uma figura importante na região do Moxico, o Lúcio Lara. A ala branca e mulata do MPLA que viria a perder a luta interna para os negros do Eduardo dos Santos.
Foi com a intervenção directa do meu pai junto do Dr. Savimbi que foi permitida a libertação e o regresso a Luanda.
Antes de embarcar com a minha mãe e a minha irmã para Nova Lisboa e para a ponte aérea, abracei o meu pai. Não sabia se o voltaria a ver.
Despedi-me do Dr. Savimbi com um beijo na barba farta, como das outras vezes. Desejou-nos boa viagem. Nunca tinha voado num barriga de ginguba, o Noratlas.
Com a família a salvo em Portugal ainda antes da Independência, e com o sonho da via para a paz agora desfeito, decidiu regressar.
A Diamang, a companhia dos diamantes de Angola, tinha uma casa em Saurimo, a norte, e escritórios ainda mais a norte, no Dundo.
O meu pai ficou com as chaves de ambas e esperou pelas tropas do MPLA que entretanto tinham tomado as cidades, para as entregar ao responsável do MPLA.
Iniciou a viagem por terra, via Zâmbia. Levava uma carta, um salvo conduto, assinada pelo Savimbi. Organizou uma coluna de refugiados, velhos, mulheres e crianças.
Alternava a liderança da caravana com dois missionários negros.
Perto da fronteira foram parados pelas tropas da Zâmbia. De nada valeu a carta. Foi feito prisioneiro juntamente com os dois padres.
Foram torturados durante onze dias, as cicatrizes das baionetas eram bem visíveis no corpo. Foi identificado entetanto e resgatado pela Cruz Vermelha.
Fui ter com ele à estação de Campanhã, no Porto, 40Kg num corpo de 1,85m.
“O mundo vai acabar. E eu até sei quando. Posso dizer, não há razão para fazer segredo”. Do livro do Rui Zink, Apocalipse Nau.
Quando o meu pai morreu permaneci entre dois mundos, hesitante, a anomia tomou conta de mim. O luto foi demorado e em silêncio.
Abandonei a condição de filho e assumi a de pai. Em rigor nunca até então tinha percebido a sua importância na minha vida.
Sinto muito a falta do meu pai, do tempo que não passámos juntos. Vai para dezanove anos que não está comigo.
Dói-me muito a tua ausência. Fazes hoje 100 anos paizinho.
O autor escreve segundo o antigo
Acordo Ortográfico.
Partíamos do Luso (Moxico) em direcção ao infinito, Henrique de Carvalho, Malanje, Novo Redondo, Silva Porto, Huambo, Benguela, Lobito, Sá da Bandeira, Serpa Pinto.
Por aqueles dias o Luíz Gonzaga Grego Júnior, assim registado por ter herdado o nome do meu avô, era o relações públicas da UNITA.
Juntava o dinheiro dos empresários e comerciantes para as colunas militares poderem circular, sem serem atacadas nas zonas sob influência do movimento do Galo Negro.
Fomos à Jamba muitas vezes, sempre de noite, não havia lixo no chão de terra, as luzes eram amarelas, mais baixas do que o arvoredo.
Não era uma cidadela mas também não era um bairro. Nunca vi as mulheres e as crianças que lá viviam.
Soube da guerra civil porque fomos para a escola apressadamente fazer o exame da 4ª classe. Todos queriam regressar.
Os militares portugueses tomaram posição favorável ao MPLA, não participaram no conflito mas facilitaram o equipamento e a logística.
O MPLA e UNITA combatiam rua a rua, casa a casa, ficando os mortos, e os feridos deixados à sua sorte, pelas ruas.
Lá pelo final da tarde, o meu pai e eu miúdo, com nove anitos, recolhíamos os feridos e leváva-mo-los para o Hospital. Depois, os mortos.
A guerra parava, mesmo não jogando o Benfica. A âmbulância improvisada era um Mazda 616, AAF-18-29, cor de laranja, era a última esperança para muitos.
A UNITA, entretanto, tinha cercado e capturado uma figura importante na região do Moxico, o Lúcio Lara. A ala branca e mulata do MPLA que viria a perder a luta interna para os negros do Eduardo dos Santos.
Foi com a intervenção directa do meu pai junto do Dr. Savimbi que foi permitida a libertação e o regresso a Luanda.
Antes de embarcar com a minha mãe e a minha irmã para Nova Lisboa e para a ponte aérea, abracei o meu pai. Não sabia se o voltaria a ver.
Despedi-me do Dr. Savimbi com um beijo na barba farta, como das outras vezes. Desejou-nos boa viagem. Nunca tinha voado num barriga de ginguba, o Noratlas.
Com a família a salvo em Portugal ainda antes da Independência, e com o sonho da via para a paz agora desfeito, decidiu regressar.
A Diamang, a companhia dos diamantes de Angola, tinha uma casa em Saurimo, a norte, e escritórios ainda mais a norte, no Dundo.
O meu pai ficou com as chaves de ambas e esperou pelas tropas do MPLA que entretanto tinham tomado as cidades, para as entregar ao responsável do MPLA.
Iniciou a viagem por terra, via Zâmbia. Levava uma carta, um salvo conduto, assinada pelo Savimbi. Organizou uma coluna de refugiados, velhos, mulheres e crianças.
Alternava a liderança da caravana com dois missionários negros.
Perto da fronteira foram parados pelas tropas da Zâmbia. De nada valeu a carta. Foi feito prisioneiro juntamente com os dois padres.
Foram torturados durante onze dias, as cicatrizes das baionetas eram bem visíveis no corpo. Foi identificado entetanto e resgatado pela Cruz Vermelha.
Fui ter com ele à estação de Campanhã, no Porto, 40Kg num corpo de 1,85m.
“O mundo vai acabar. E eu até sei quando. Posso dizer, não há razão para fazer segredo”. Do livro do Rui Zink, Apocalipse Nau.
Quando o meu pai morreu permaneci entre dois mundos, hesitante, a anomia tomou conta de mim. O luto foi demorado e em silêncio.
Abandonei a condição de filho e assumi a de pai. Em rigor nunca até então tinha percebido a sua importância na minha vida.
Sinto muito a falta do meu pai, do tempo que não passámos juntos. Vai para dezanove anos que não está comigo.
Dói-me muito a tua ausência. Fazes hoje 100 anos paizinho.
O autor escreve segundo o antigo
Acordo Ortográfico.

