Pedro Ferreira .. Contra Fatos
EM CASA QUE NÃO HÁ PÃO...
21 de outubro de 2026Os últimos tempos não têm sido fáceis para a maioria dos portugueses. A subida vertiginosa dos combustíveis tem tido um impacto nos bolsos de todos nós que é impossível de ignorar. Não só se torna mais difícil abastecer o automóvel como, por força indirecta destes aumentos, muitos bens essenciais vão ficando mais caros.
Muitos têm pedido a acção do governo, apresentando propostas de natureza diversa, mas sempre com o mesmo objectivo: reduzir o impacto destes aumentos no dia-a-dia das pessoas e das empresas.
Não pretendo reflectir sobre a bondade ou eficácia destas propostas. Prefiro usar esta situação para abordar uma questão de fundo, mais estrutural e não meramente conjuntural como a subida dos combustíveis: por que Portugal anda sempre “aflito”?
Sempre que algum acontecimento global agita as águas da economia, parece que em Portugal se forma uma espécie de tsunami. Tem sido assim em inúmeras ocasiões: a recessão global e crise da dívida soberana (2008-14), a pandemia do COVID-19 (2020-21), a crise inflaccionista e a guerra na Ucrânia (2022-2024) e agora o conflito no médio oriente.
Quando somos atingidos, as dificuldades dramáticas que o país vivencia traduzem-se sempre na mesma fórmula: para os cidadãos, os preços de bens essenciais sobem, os salários não; para as empresas, os custos de produção aumentam, as vendas não.
E é aqui que se espera que o Estado – através do governo – tenha uma solução ou uma atenuante para o “aperto”. E todos esperam que o Estado possa implementar uma qualquer medida que os possa aliviar: descida do IVA, descida da retenção de IRS, descida de outros impostos, aumento extraordinário de pensões, subsídios de toda a ordem, e por aí fora...
Embora no imediato todas estas medidas podem ajudar a aliviar o esforço, a verdade é que, todas elas, custam dinheiro ao Estado. E esta entidade, que parece muito abstracta e distante, somos todos nós, cidadãos e organizações, que contribuem para os recursos comuns através dos impostos.
Portanto, o Estado só pode devolver e redistribuir o que arrecada através dos impostos. Se não arrecada ou arrecada pouco, então não poderá redistribuir muito. Neste momento, o leitor deve estar furioso comigo: “então, eu já não pago impostos que chegue?”. A resposta é sim e não: quando só os impostos sobre o trabalho “levam” cerca de 35% do salário, sim está a pagar muito; mas, ao mesmo tempo, não paga muito. Se o seu salário estiver na média (o que já não é mau...), o valor absoluto que o Estado retém é pequeno. Dito de outro modo, 35% de pouco é... muito pouco. E o mesmo acontece com as empresas: com salários baixos a contribuição para a segurança social é pequena; se os lucros forem pequenos (ou inexistentes) a contribuição do IRC será pequena.
Vivemos, assim, num país onde, como diz o ditado, “em casa que não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. Todos reclamam que o Estado ponha mais dinheiro no seu bolso, mas o Estado, mesmo que queira, não tem esse dinheiro. A questão que se coloca então é, como podemos ter mais recursos para redistribuir? A isso voltarei numa próxima reflexão...
Muitos têm pedido a acção do governo, apresentando propostas de natureza diversa, mas sempre com o mesmo objectivo: reduzir o impacto destes aumentos no dia-a-dia das pessoas e das empresas.
Não pretendo reflectir sobre a bondade ou eficácia destas propostas. Prefiro usar esta situação para abordar uma questão de fundo, mais estrutural e não meramente conjuntural como a subida dos combustíveis: por que Portugal anda sempre “aflito”?
Sempre que algum acontecimento global agita as águas da economia, parece que em Portugal se forma uma espécie de tsunami. Tem sido assim em inúmeras ocasiões: a recessão global e crise da dívida soberana (2008-14), a pandemia do COVID-19 (2020-21), a crise inflaccionista e a guerra na Ucrânia (2022-2024) e agora o conflito no médio oriente.
Quando somos atingidos, as dificuldades dramáticas que o país vivencia traduzem-se sempre na mesma fórmula: para os cidadãos, os preços de bens essenciais sobem, os salários não; para as empresas, os custos de produção aumentam, as vendas não.
E é aqui que se espera que o Estado – através do governo – tenha uma solução ou uma atenuante para o “aperto”. E todos esperam que o Estado possa implementar uma qualquer medida que os possa aliviar: descida do IVA, descida da retenção de IRS, descida de outros impostos, aumento extraordinário de pensões, subsídios de toda a ordem, e por aí fora...
Embora no imediato todas estas medidas podem ajudar a aliviar o esforço, a verdade é que, todas elas, custam dinheiro ao Estado. E esta entidade, que parece muito abstracta e distante, somos todos nós, cidadãos e organizações, que contribuem para os recursos comuns através dos impostos.
Portanto, o Estado só pode devolver e redistribuir o que arrecada através dos impostos. Se não arrecada ou arrecada pouco, então não poderá redistribuir muito. Neste momento, o leitor deve estar furioso comigo: “então, eu já não pago impostos que chegue?”. A resposta é sim e não: quando só os impostos sobre o trabalho “levam” cerca de 35% do salário, sim está a pagar muito; mas, ao mesmo tempo, não paga muito. Se o seu salário estiver na média (o que já não é mau...), o valor absoluto que o Estado retém é pequeno. Dito de outro modo, 35% de pouco é... muito pouco. E o mesmo acontece com as empresas: com salários baixos a contribuição para a segurança social é pequena; se os lucros forem pequenos (ou inexistentes) a contribuição do IRC será pequena.
Vivemos, assim, num país onde, como diz o ditado, “em casa que não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. Todos reclamam que o Estado ponha mais dinheiro no seu bolso, mas o Estado, mesmo que queira, não tem esse dinheiro. A questão que se coloca então é, como podemos ter mais recursos para redistribuir? A isso voltarei numa próxima reflexão...

