Pedro Ferreira .. Contra Fatos
MUITA PARRA E POUCA UVA
15 de abril de 2026Passamos uma vida a trabalhar”. Ouvimos (e dizemos) muitas vezes esta frase. Traduz frequentemente a ideia de que trabalhamos muitas horas (demasiadas!).
De facto, os portugueses são, no contexto europeu, dos que mais horas passam a trabalhar, ou pelo menos no trabalho. Em média, um português trabalha cerca de 1735 horas por ano. Mais que Portugal, só mesmo Malta, Roménia, Polónia, Chipre, Grécia e Croácia. No extremo oposto, ou seja, os países onde menos horas se trabalha na Europa, estão Alemanha, Noruega, Dinamarca, Países Baixos, Áustria e Luxemburgo.
Existe aqui um primeiro padrão: os países onde mais se trabalha são os menos desenvolvidos e desempenhos económicos mais modestos. Até certo ponto, poderíamos dizer que faz sentido. Se os queres apanhar, tens de correr mais que eles: para “apanhar o comboio” do desenvolvimento, têm de trabalhar mais horas para se poderem equiparar aos países mais desenvolvidos, onde cada trabalhador trabalha bem menos horas por ano.
Na teoria parece tudo certo, na prática nem por isso. Isto porque quando olhamos para os números da produtividade, o cenário não é nada animador para países onde se trabalham muitas horas. Na realidade, a produtividade por hora, traduzida e uniformizada em dólares, é muito menor nos países onde se trabalham mais horas que nos países onde se trabalham menos horas. Nos países onde mais se trabalha, e já enumerados em cima, a produtividade situa-se entre os 38 e os 46 dólares por hora.
Em Portugal, especificamente, cada trabalhador trabalha 1735 horas por ano e produz o equivalente a cerca de 43 dólares por hora. Na Alemanha, cada trabalhador trabalha 1335 horas por ano (menos 400 horas por ano!) e produz cerca do dobro (83 dólares/hora). A situação da Noruega é ainda mais acentuada: trabalha-se 1412 horas/ano e cada trabalhador produz o equivalente a 130 dólares/hora: uma produtividade 3 vezes superior à portuguesa.
Trabalhar muito, não é sinónimo de trabalhar bem. Existem muitos outros factores que, por muitas horas que trabalhemos, estarão sempre a corroer o esforço individual e colectivo do país. Uma economia assente num tecido empresarial de pequenas (e frágeis) empresas, em sectores tradicionais de baixo valor acrescentado e com pouca capacidade de inovação; ao nível do Estado, a burocracia e uma organização (tradicional e ultrapassada) da administração pública; ao nível das empresas, a mentalidade e práticas de gestão absoletas, dignas de um filme de Charlie Chaplin dos anos 30; e, sim, ao nível individual, a falta de ambição, ética de trabalho e profissionalismo. Tudo isto, misturado num cozinhado de sabor amargo, continua a colocar Portugal na cauda da Europa.
Mas amanhã é dia de trabalho e voltaremos a trabalhar muitas horas...
Nota: o autor escreve
segundo o antigo acordo ortográfico
De facto, os portugueses são, no contexto europeu, dos que mais horas passam a trabalhar, ou pelo menos no trabalho. Em média, um português trabalha cerca de 1735 horas por ano. Mais que Portugal, só mesmo Malta, Roménia, Polónia, Chipre, Grécia e Croácia. No extremo oposto, ou seja, os países onde menos horas se trabalha na Europa, estão Alemanha, Noruega, Dinamarca, Países Baixos, Áustria e Luxemburgo.
Existe aqui um primeiro padrão: os países onde mais se trabalha são os menos desenvolvidos e desempenhos económicos mais modestos. Até certo ponto, poderíamos dizer que faz sentido. Se os queres apanhar, tens de correr mais que eles: para “apanhar o comboio” do desenvolvimento, têm de trabalhar mais horas para se poderem equiparar aos países mais desenvolvidos, onde cada trabalhador trabalha bem menos horas por ano.
Na teoria parece tudo certo, na prática nem por isso. Isto porque quando olhamos para os números da produtividade, o cenário não é nada animador para países onde se trabalham muitas horas. Na realidade, a produtividade por hora, traduzida e uniformizada em dólares, é muito menor nos países onde se trabalham mais horas que nos países onde se trabalham menos horas. Nos países onde mais se trabalha, e já enumerados em cima, a produtividade situa-se entre os 38 e os 46 dólares por hora.
Em Portugal, especificamente, cada trabalhador trabalha 1735 horas por ano e produz o equivalente a cerca de 43 dólares por hora. Na Alemanha, cada trabalhador trabalha 1335 horas por ano (menos 400 horas por ano!) e produz cerca do dobro (83 dólares/hora). A situação da Noruega é ainda mais acentuada: trabalha-se 1412 horas/ano e cada trabalhador produz o equivalente a 130 dólares/hora: uma produtividade 3 vezes superior à portuguesa.
Trabalhar muito, não é sinónimo de trabalhar bem. Existem muitos outros factores que, por muitas horas que trabalhemos, estarão sempre a corroer o esforço individual e colectivo do país. Uma economia assente num tecido empresarial de pequenas (e frágeis) empresas, em sectores tradicionais de baixo valor acrescentado e com pouca capacidade de inovação; ao nível do Estado, a burocracia e uma organização (tradicional e ultrapassada) da administração pública; ao nível das empresas, a mentalidade e práticas de gestão absoletas, dignas de um filme de Charlie Chaplin dos anos 30; e, sim, ao nível individual, a falta de ambição, ética de trabalho e profissionalismo. Tudo isto, misturado num cozinhado de sabor amargo, continua a colocar Portugal na cauda da Europa.
Mas amanhã é dia de trabalho e voltaremos a trabalhar muitas horas...
Nota: o autor escreve
segundo o antigo acordo ortográfico

