Pedro Ferreira .. Contra Fatos
A PROXIMIDADE NÃO CABE NUM ECRÃ
07 de outubro de 2026Em 2024, o Governo emitiu uma recomendação com orientações de regulação do uso de smartphones pelos alunos nas escolas. Em 2025, esta recomendação passou a assumir um carácter vinculativo nos 1º e 2º ciclos, ao ser publicado o Decreto-Lei n.º 95/2025.
No passado mês de julho, o Centro de Planeamento e de Avaliação de Políticas Públicas (PLANAPP) publicou os resultados de um estudo de acompanhamento da implementação da legislação que regula o uso de smartphones nas escolas. O objectivo deste estudo é, em primeiro lugar, avaliar com base em dados concretos (em vez de meras opiniões e “achómetros”) a eficácia pretendida daquela medida e, com isso, produzir informação que permita aferir se os efeitos da política são realmente os pretendidos.
Entre muitos dados apresentados (o estudo tem cerca de 70 páginas), há dois indicadores que nos podem ajudar a perceber da eficácia da medida: o índice de disciplina (mede os comportamentos desviantes dos alunos) e o índice de socialização (mede os comportamentos de relação e interacção face a face entre os alunos).
Os resultados são bastante conclusivos: em todos os ciclos de estudos, o índice de socialização aumentou significativamente entre 15% e 40%. Quer isto dizer que os alunos, em todos os ciclos de estudos onde a restrição ao uso dos smartphones foi implementada, registaram aumento nas suas relações interpessoais face a face, sendo que o aumento mais expressivo foi no 2º ciclo e o menos expressivo no 1º ciclo.
Já o índice de disciplina aumentou significativamente entre 7% e 17% em todos os ciclos de estudos, excepto no 1º ciclo. Portanto, os níveis de conflitos reduziram-se onde a restrição foi aplicada – e consequente aumento de disciplina. Mais uma vez, o aumento mais expressivo registou-se no 2º ciclo e o menos expressivo no ensino secundário.
Estes resultados são relevantes, pois a escola deve ser um ambiente física, psicológica e socialmente seguro, para que as crianças e jovens se desenvolvam como pessoas e cidadãos. Menos agressividade e conflitos são favoráveis a relações pessoais mais saudáveis; mais interacção face a face é favorável ao desenvolvimento de competências sociais tão relevantes para a vida em sociedade.
No entanto, fica por aferir os efeitos da restrição do uso dos smartphones no desempenho escolar. Naturalmente, este não será o efeito mais importante, e poderá até ser um efeito colateral dos efeitos na disciplina e na socialização (um ambiente escolar mais saudável poderá contribuir para melhorar o desempenho escolar).
Fica também por aferir até que ponto esta restrição não se transforma num excesso fora do ambiente escolar. Na impossibilidade de usar os smartphones durante o período em que se encontram na escola, será que os alunos poderão, após saírem da escola, intensificar ainda mais o uso daqueles aparelhos?
De qualquer forma, os dados são animadores e mostram que, de facto, a redução da exposição aos smartphones é favorável à melhoria do ambiente escolar. E, com isso, os alunos têm a possibilidade de se desenvolverem enquanto pessoas, melhorando as suas competências sociais. Afinal, estar mais próximo tem muito pouco a ver com tecnologia; tem mesmo a ver com relações.
Nota: o autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico
No passado mês de julho, o Centro de Planeamento e de Avaliação de Políticas Públicas (PLANAPP) publicou os resultados de um estudo de acompanhamento da implementação da legislação que regula o uso de smartphones nas escolas. O objectivo deste estudo é, em primeiro lugar, avaliar com base em dados concretos (em vez de meras opiniões e “achómetros”) a eficácia pretendida daquela medida e, com isso, produzir informação que permita aferir se os efeitos da política são realmente os pretendidos.
Entre muitos dados apresentados (o estudo tem cerca de 70 páginas), há dois indicadores que nos podem ajudar a perceber da eficácia da medida: o índice de disciplina (mede os comportamentos desviantes dos alunos) e o índice de socialização (mede os comportamentos de relação e interacção face a face entre os alunos).
Os resultados são bastante conclusivos: em todos os ciclos de estudos, o índice de socialização aumentou significativamente entre 15% e 40%. Quer isto dizer que os alunos, em todos os ciclos de estudos onde a restrição ao uso dos smartphones foi implementada, registaram aumento nas suas relações interpessoais face a face, sendo que o aumento mais expressivo foi no 2º ciclo e o menos expressivo no 1º ciclo.
Já o índice de disciplina aumentou significativamente entre 7% e 17% em todos os ciclos de estudos, excepto no 1º ciclo. Portanto, os níveis de conflitos reduziram-se onde a restrição foi aplicada – e consequente aumento de disciplina. Mais uma vez, o aumento mais expressivo registou-se no 2º ciclo e o menos expressivo no ensino secundário.
Estes resultados são relevantes, pois a escola deve ser um ambiente física, psicológica e socialmente seguro, para que as crianças e jovens se desenvolvam como pessoas e cidadãos. Menos agressividade e conflitos são favoráveis a relações pessoais mais saudáveis; mais interacção face a face é favorável ao desenvolvimento de competências sociais tão relevantes para a vida em sociedade.
No entanto, fica por aferir os efeitos da restrição do uso dos smartphones no desempenho escolar. Naturalmente, este não será o efeito mais importante, e poderá até ser um efeito colateral dos efeitos na disciplina e na socialização (um ambiente escolar mais saudável poderá contribuir para melhorar o desempenho escolar).
Fica também por aferir até que ponto esta restrição não se transforma num excesso fora do ambiente escolar. Na impossibilidade de usar os smartphones durante o período em que se encontram na escola, será que os alunos poderão, após saírem da escola, intensificar ainda mais o uso daqueles aparelhos?
De qualquer forma, os dados são animadores e mostram que, de facto, a redução da exposição aos smartphones é favorável à melhoria do ambiente escolar. E, com isso, os alunos têm a possibilidade de se desenvolverem enquanto pessoas, melhorando as suas competências sociais. Afinal, estar mais próximo tem muito pouco a ver com tecnologia; tem mesmo a ver com relações.
Nota: o autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico

